Esse foi o relato da minha experiência embrionária nesse tópico. Uma palestra na em Gyeongju, na Coréia do Sul, para o International Symposium on Neurobehavioral Methods and Effects in Environmental and Occupational Health. Infelizmente o estudo para a validação dessa ferramenta que adaptei para uso no Brasil foi interrompida com o falecimento do brilhante professor Richard Letz, autor da bateria.
Parte 1:
Parte 2:
A última parte eu guardei. Nela eu faço um tributo emocionado ao prof. Letz. Mas eu me emocionei demais e fiquei com vergonha de postar. No jantar de encerramento do congresso, quando todas as delegações dos diversos países se apresentaram e eram saudadas, eu era o único do Brasil. Inesperadamente, os quase 200 participantes me aplaudiram e gritavam em uníssono: "Carlos! Carlos! Carlos!". Não era para tanto, é óbvio, mas foi inesquecível.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Nexo Causal em Neurotoxicologia Ocupacional
No dia desta palestra eu estava bem nervoso e a gravação ficou muito baixa. Mas meu impulso maior foi o fato de um dos anfitriões ter manifestado uma agressividade inimaginável sobre as pessoas que procuram auxílio médico após exposição à agentes químicos neurotóxicos, generalizando assim: "essas pessoas não tem nenhum efeito tóxico importante e só querem saber de processar alguém". Tive que usar na minha palestra na Conferência Internacional em Neurotoxicologia realizada em Rochester, NY - registrada no vídeo abaixo - um tom bem mais panfletário do que seria recomendável para a minha reputação. Mas eu tinha que dizer: o estudo da neurotoxicologia clínica não é uma preocupação desnecessária, muito pelo contrário.
Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:
Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Anvisa x Indústria de Agrotóxicos
As decisões regulatórias sobre o uso de agrotóxicos em qualquer país do mundo são de prerrogativa e responsabilidade exclusiva de órgãos governamentais. Não cabe aos fabricantes de agrotóxicos recorrer ao expediente de liminares com o intuito de suspender o processo de reavaliação dos produtos, alegando que não fizeram parte do processo de decisão. Cabe aos fabricantes apenas expor seus argumentos diante de tantas proibições dessas substâncias em outros países, justamente aquelas cujo uso a Anvisa está reavaliando, numa escolha muito apropriada. Esse deve ser o papel da indústria nos comitês: deliberar com a entidade governamental qualificada, não decidir por ela. Como já foi dito, muito sabiamente: nunca devemos ser contra os agrotóxicos --eles podem ser muito úteis; todavia devemos ser sempre a favor da saúde das pessoas e do ambiente. Que a educação e o investimento em inovação tecnológica permitam a criação e a propagação de métodos cada vez mais sustentáveis de agricultura, como já ocorre em muitos países da América Latina. Hoje, alguns poucos obtêm grandes lucros com a venda de agrotóxicos no país. E que retribuição que nos dão? As mortes e as doenças de muitos seres humanos e outros seres vivos. E, não obstante, ainda criam obstáculos para que o governo nos defenda!
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Metrô para o aeroporto de Congonhas
Mandei o email abaixo pra ouvidoria do metrô de São Paulo e pro Twitter do nosso querido governador José Serra, disponível no link abaixo:
http://www.twitter.com/joseserra_
UPDATE: o governador rapidamente encaminhou meus questionamentos e sugestões. Fiquei muito feliz com a rapidez da resposta. E muito grato. Gostei mesmo. Leiam o meu e-mail pra ouvidoria do metrô.
Por favor, não entendam mal, caríssimo governador e demais entusiastas do projeto. É realmente muita vontade que o projeto dê certo e ajude a cidade a crescer, mas com segurança. Entendo que é a versão ZERO e que ainda será aprimorada. O projeto da ligação do aeroporto com o metrô que eu critico aqui está em: http://www.metro.sp.gov.br/expansao/linha17/arquivos/port/diretrizes_basicas/rt_7000000_0V5_001_preliminar_revisao_0.pdf (veja logo antes que tirem do ar...)
Prezado ouvidor,
Sou médico e me preocupo muito com a segurança da malha metroferroviária.
Ao ler o documento intitulado DIRETRIZES BÁSICAS - RELATÓRIO SÍNTESE RT-7.00.00.00/0V5-001 Rev. Ø sobre a METRÔ LINHA 17 - OURO, 2 coisas me chamaram a atenção.
1) o traçado
2) a segurança das composições.
1) O traçado da linha a ser preferencialmente construída passa à beira da cabeceira noroeste da pista, o que poderia colocar em risco a segurança dos passageiros.Seria possível contornar este problema mantendo o traçado JAB10 a JAB60. A ligação com JUD30 (Aeroporto) Poderia ser feita com uma linha acessória, diferenciada, ou com a mesma linha. É comum a tarifação diferenciada e uma linha dedicada exclusivamente ao aeroporto, o que até auxiliaria na implementação do projeto.
2) O sistema monotrilho tem diversos benefícios como menor impacto à redondeza e a minimização da utilização do solo. Seu uso tem até potencial turístico, como nos monotrilhos urbanos de Sydney, para não citar os parques temáticos. Contudo, tendo o ocorrido no incêndio com o monotrilho maglev Transrapid na Alemanha, no qual as mortes foram atribuídas à ausência de uma possibilidade de saída de emergência associada à grande elevação em relação ao nível do solo, gostaria de saber se há previsto saídas de emergência, calçadas para pedestres, escorregadores, etc. já que não encontrei nada disso no supracitado documento.
Grato,
Carlos Fernando Collares
---
Pra quem quiser saber mais sobre o acidente com o monotrilho da Transrapid (atualmente já usado em Xangai e do qual eu sou um fã assumido), o acidente também foi creditado à falta de um sistema automático anticolisão. Leiam: http://en.wikipedia.org/wiki/2006_Lathen_maglev_train_accident (é do Wikipedia, mas é bom).
http://www.twitter.com/joseserra_
UPDATE: o governador rapidamente encaminhou meus questionamentos e sugestões. Fiquei muito feliz com a rapidez da resposta. E muito grato. Gostei mesmo. Leiam o meu e-mail pra ouvidoria do metrô.
Por favor, não entendam mal, caríssimo governador e demais entusiastas do projeto. É realmente muita vontade que o projeto dê certo e ajude a cidade a crescer, mas com segurança. Entendo que é a versão ZERO e que ainda será aprimorada. O projeto da ligação do aeroporto com o metrô que eu critico aqui está em: http://www.metro.sp.gov.br/expansao/linha17/arquivos/port/diretrizes_basicas/rt_7000000_0V5_001_preliminar_revisao_0.pdf (veja logo antes que tirem do ar...)
Prezado ouvidor,
Sou médico e me preocupo muito com a segurança da malha metroferroviária.
Ao ler o documento intitulado DIRETRIZES BÁSICAS - RELATÓRIO SÍNTESE RT-7.00.00.00/0V5-001 Rev. Ø sobre a METRÔ LINHA 17 - OURO, 2 coisas me chamaram a atenção.
1) o traçado
2) a segurança das composições.
1) O traçado da linha a ser preferencialmente construída passa à beira da cabeceira noroeste da pista, o que poderia colocar em risco a segurança dos passageiros.Seria possível contornar este problema mantendo o traçado JAB10 a JAB60. A ligação com JUD30 (Aeroporto) Poderia ser feita com uma linha acessória, diferenciada, ou com a mesma linha. É comum a tarifação diferenciada e uma linha dedicada exclusivamente ao aeroporto, o que até auxiliaria na implementação do projeto.
2) O sistema monotrilho tem diversos benefícios como menor impacto à redondeza e a minimização da utilização do solo. Seu uso tem até potencial turístico, como nos monotrilhos urbanos de Sydney, para não citar os parques temáticos. Contudo, tendo o ocorrido no incêndio com o monotrilho maglev Transrapid na Alemanha, no qual as mortes foram atribuídas à ausência de uma possibilidade de saída de emergência associada à grande elevação em relação ao nível do solo, gostaria de saber se há previsto saídas de emergência, calçadas para pedestres, escorregadores, etc. já que não encontrei nada disso no supracitado documento.
Grato,
Carlos Fernando Collares
---
Pra quem quiser saber mais sobre o acidente com o monotrilho da Transrapid (atualmente já usado em Xangai e do qual eu sou um fã assumido), o acidente também foi creditado à falta de um sistema automático anticolisão. Leiam: http://en.wikipedia.org/wiki/2006_Lathen_maglev_train_accident (é do Wikipedia, mas é bom).
terça-feira, 7 de julho de 2009
Criminosos
Recebi da Helô e repasso para vocês terem uma idéia do nível que está a produção agrícola brasileira... Seus lucros estão sugando a saúde da população. 25 milhões de litros de agrotóxico adulterado que iriam para a sua mesa.
Prezados, Segue o link da notícia sobre a última peripécia da novela “Fabricantes de Defensivos agrícolas”. O produto que deu origem à inspeção foi o PODOS (que não estaria em produção na fábrica; soubemos depois que os reservatórios estavam cheios – confirmação gravada na ANVISA). Os outros foram identificados durante a fiscalização. A análise do processo para registro por um técnico da Gerência Geral de Toxicologia da ANVISA mostrou dados um tanto quanto confusos e a Gerência decidiu verificar. O que foi achado nas análises químicas e nos documentos da empresa não é o declarado nos processos de avaliação toxicológica que permite ou não a comercialização dos produtos.O jornalista não informou sobre os riscos que correm os trabalhadores rurais e as pessoas que consomem alimentos com resíduos desses produtos, como as neuropatias periféricas, pseudoparkinsonismo, falência respiratória, alterações hepáticas e renais, câncer, distúrbios na reprodução (anomalias em testículos, abortos precoces, malformações fetais), etc.Os termos da lei que chama essas empresas de produtoras de agrotóxicos é mais realista. Agradecemos o apoio.
Heloísa.
Operação simultânea da Anvisa e Polícia Federal apreende 2,5 milhões de litros de agrotóxico adulterado
Operação simultânea da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e Polícia Federal apreendeu 2,5 milhões de litros de agrotóxicos adulterados em Londrina (PR) e Taquari (RS), nesta quarta (1) e quinta-feira (2). A ação também interditou a linha de produção de cinco agrotóxicos da empresa Milenia Agrociencias S/A, filial do grupo israelense Makhteshim Agan.Durante a ação, deflagrada simultaneamente nas duas cidades da região Sul, foi constatado que os agrotóxicos Herbimix®, Pyrinex®, Posmil®, Trop® e Podos® eram com adulteração na fórmula, sem autorização.A ANVISA apreendeu, ainda, os documentos com a ordem de produção desses produtos.A interdição é valida por 90 dias, prazo em que os produtos não poderão ser comercializados. A Milenia Agrociencias S/A terá cinco dias para apresentar contraprova.
Investigação
As investigações, que resultaram na operação, começaram a partir de denúncia a respeito da adulteração do agrotóxico Podos®. Antes da ação, a ANVISA colheu amostras do produto no mercado e encaminhou para análise da Polícia Federal e do Instituto Adolfo Lutz. A perícia detectou que o Podos® era comercializado com formulação tóxica acima do permitido. O produto é registrado no Ministério da Agricultura mediante avaliação toxicológica efetuada pela ANVISA com padrões toxicológicos de classe III, ou seja, medianamente tóxico. O material colhido no mercado apresentou teores de toxicidade de classe I, isso é: extremamente tóxico.Com a formulação encontrada no mercado, esse produto pode causar, nos trabalhadores rurais que manipulam o agrotóxico, irritação irreversível da córnea e cegueira.
Prezados, Segue o link da notícia sobre a última peripécia da novela “Fabricantes de Defensivos agrícolas”. O produto que deu origem à inspeção foi o PODOS (que não estaria em produção na fábrica; soubemos depois que os reservatórios estavam cheios – confirmação gravada na ANVISA). Os outros foram identificados durante a fiscalização. A análise do processo para registro por um técnico da Gerência Geral de Toxicologia da ANVISA mostrou dados um tanto quanto confusos e a Gerência decidiu verificar. O que foi achado nas análises químicas e nos documentos da empresa não é o declarado nos processos de avaliação toxicológica que permite ou não a comercialização dos produtos.O jornalista não informou sobre os riscos que correm os trabalhadores rurais e as pessoas que consomem alimentos com resíduos desses produtos, como as neuropatias periféricas, pseudoparkinsonismo, falência respiratória, alterações hepáticas e renais, câncer, distúrbios na reprodução (anomalias em testículos, abortos precoces, malformações fetais), etc.Os termos da lei que chama essas empresas de produtoras de agrotóxicos é mais realista. Agradecemos o apoio.
Heloísa.
Operação simultânea da Anvisa e Polícia Federal apreende 2,5 milhões de litros de agrotóxico adulterado
Operação simultânea da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e Polícia Federal apreendeu 2,5 milhões de litros de agrotóxicos adulterados em Londrina (PR) e Taquari (RS), nesta quarta (1) e quinta-feira (2). A ação também interditou a linha de produção de cinco agrotóxicos da empresa Milenia Agrociencias S/A, filial do grupo israelense Makhteshim Agan.Durante a ação, deflagrada simultaneamente nas duas cidades da região Sul, foi constatado que os agrotóxicos Herbimix®, Pyrinex®, Posmil®, Trop® e Podos® eram com adulteração na fórmula, sem autorização.A ANVISA apreendeu, ainda, os documentos com a ordem de produção desses produtos.A interdição é valida por 90 dias, prazo em que os produtos não poderão ser comercializados. A Milenia Agrociencias S/A terá cinco dias para apresentar contraprova.
Investigação
As investigações, que resultaram na operação, começaram a partir de denúncia a respeito da adulteração do agrotóxico Podos®. Antes da ação, a ANVISA colheu amostras do produto no mercado e encaminhou para análise da Polícia Federal e do Instituto Adolfo Lutz. A perícia detectou que o Podos® era comercializado com formulação tóxica acima do permitido. O produto é registrado no Ministério da Agricultura mediante avaliação toxicológica efetuada pela ANVISA com padrões toxicológicos de classe III, ou seja, medianamente tóxico. O material colhido no mercado apresentou teores de toxicidade de classe I, isso é: extremamente tóxico.Com a formulação encontrada no mercado, esse produto pode causar, nos trabalhadores rurais que manipulam o agrotóxico, irritação irreversível da córnea e cegueira.
sábado, 6 de junho de 2009
As ameaças ambientais ao cérebro humano
“O cérebro humano corre um risco gerado por si mesmo. (...) é [simultaneamente] o alvo dos nossos erros sobre o ambiente, mas também é o ponto de partida desses erros. Por outro lado, nosso cérebro pode originar as soluções para consertar tais problemas. Nosso cérebro é vítima, causador e mitigador das nocivas alterações ambientais que prejudicam a percepção, a cognição e as emoções das pessoas, sua capacidade de reproduzir e amadurecer. A educação de baixa qualidade, a poluição, a falta de saneamento básico, a dieta pobre em nutrientes, e o uso indiscriminado de agrotóxicos em nossos alimentos são fatores que, associados, contribuem para um ambiente psicossocial degradado (...) Milhões de pessoas estão sofrendo de declínio em sua inteligência. Logicamente proteger o cérebro das futuras gerações deveria ser uma prioridade ambiental – mas não é.”
(extraído de Christopher Williams, no livro Terminus Brain: The Environmental Threat to Human Intelligence
.)
(extraído de Christopher Williams, no livro Terminus Brain: The Environmental Threat to Human Intelligence
Rachel Carson: uma pioneira corajosa (e injustiçada)
Palavras inspiradoras que jamais devem ser esquecidas:
"É uma ironia pensar que o homem possa determinar seu próprio futuro por meio de algo tão aparentemente trivial como a eleição de uma pulverização com pesticidas. Se corre este risco – por quê? [...] Como podem os seres inteligentes procurarem dominar algumas espécies indesejadas através de um método que contamine tudo em sua volta e traga a ameaça de enfermidade e também da morte de sua própria espécie?"
(Rachel Carson, no livro “Silent Spring”
[Primavera Silenciosa], de 1962, o qual denunciou ao mundo efeitos deletérios do DDT, e que culminou no banimento e/ou restrição do uso dessa substância em diversos países.)
"É uma ironia pensar que o homem possa determinar seu próprio futuro por meio de algo tão aparentemente trivial como a eleição de uma pulverização com pesticidas. Se corre este risco – por quê? [...] Como podem os seres inteligentes procurarem dominar algumas espécies indesejadas através de um método que contamine tudo em sua volta e traga a ameaça de enfermidade e também da morte de sua própria espécie?"
(Rachel Carson, no livro “Silent Spring”
"Sociedade de risco", de Ulrich Beck
Todas as pessoas que trabalham com saúde coletiva deveriam ler o livro "Sociedade de risco: rumo a uma nova modernidade", de Ulrich Beck
, da onde tirei os importantíssimos trechos abaixo:
“Os cientistas insistem na ‘qualidade’ do seu trabalho e mantêm seus padrões éticos e metodológicos elevados (...) Desse próprio fato, uma não-lógica peculiar resulta de sua relação com os riscos [ambientais]. A insistência que conexões não são estabelecidas pode parecer boa para um cientista e louvável em geral. Quando se lida com riscos, o contrário é o caso para as vítimas; [o não estabelecimento de conexões] multiplica os riscos. Nesse caso a preocupação é com os perigos a serem evitados, os quais mesmo em baixa probabilidade possuem um efeito ameaçador. Se o reconhecimento de um risco é negado sobre a base de um estado ‘pouco claro’ de informação, isso significa que as contra-ações são negligenciadas e o perigo aumenta. Ao se aumentar o padrão de acurácia científica, o círculo de riscos reconhecidos que justificam ações é minimizado, e conseqüentemente, é concedida implicitamente uma licença científica para a multiplicação dos riscos (...) [Por isso,] insistir na pureza da análise científica leva à poluição e contaminação do ar, dos alimentos, da água, do solo, das plantas, dos animais e das pessoas. O que resulta então é uma coalizão oculta entre prática científica estrita e as ameaças à vida encorajadas ou toleradas por ela (...) O efeito [da substância] em pessoas pode ser somente e definitivamente estudado de forma confiável em pessoas. A sociedade está se tornando um laboratório. Mais uma vez, não encontramos nenhum desejo de discutir questões éticas, mas preferimos nos limitar completamente à lógica experimental. Substâncias são disseminadas na população em todas as formas imagináveis: ar, água, cadeias alimentares e produtivas, etc. E daí? Qual é a conclusão errônea? Apenas esta: a de que nada acontece. [...] As substâncias são administradas às pessoas, como ocorre com animais de laboratório, em pequenas doses [...] As reações nas pessoas não são sistematicamente pesquisadas e registradas (...) não são sequer notadas, a não ser que alguém relate e possa provar que tal toxina está sendo verdadeiramente maléfica à pessoa. Essa experimentação em pessoas acontece, mas invisivelmente, sem verificação científica, sem pesquisas, sem estatísticas, sem análise de correlação, numa condição em que as vítimas não são informadas – e com um ônus da prova invertido [para elas]”.
(Ulrich Beck, no livro "Risk society: towards a new modernity"
.)
“Os cientistas insistem na ‘qualidade’ do seu trabalho e mantêm seus padrões éticos e metodológicos elevados (...) Desse próprio fato, uma não-lógica peculiar resulta de sua relação com os riscos [ambientais]. A insistência que conexões não são estabelecidas pode parecer boa para um cientista e louvável em geral. Quando se lida com riscos, o contrário é o caso para as vítimas; [o não estabelecimento de conexões] multiplica os riscos. Nesse caso a preocupação é com os perigos a serem evitados, os quais mesmo em baixa probabilidade possuem um efeito ameaçador. Se o reconhecimento de um risco é negado sobre a base de um estado ‘pouco claro’ de informação, isso significa que as contra-ações são negligenciadas e o perigo aumenta. Ao se aumentar o padrão de acurácia científica, o círculo de riscos reconhecidos que justificam ações é minimizado, e conseqüentemente, é concedida implicitamente uma licença científica para a multiplicação dos riscos (...) [Por isso,] insistir na pureza da análise científica leva à poluição e contaminação do ar, dos alimentos, da água, do solo, das plantas, dos animais e das pessoas. O que resulta então é uma coalizão oculta entre prática científica estrita e as ameaças à vida encorajadas ou toleradas por ela (...) O efeito [da substância] em pessoas pode ser somente e definitivamente estudado de forma confiável em pessoas. A sociedade está se tornando um laboratório. Mais uma vez, não encontramos nenhum desejo de discutir questões éticas, mas preferimos nos limitar completamente à lógica experimental. Substâncias são disseminadas na população em todas as formas imagináveis: ar, água, cadeias alimentares e produtivas, etc. E daí? Qual é a conclusão errônea? Apenas esta: a de que nada acontece. [...] As substâncias são administradas às pessoas, como ocorre com animais de laboratório, em pequenas doses [...] As reações nas pessoas não são sistematicamente pesquisadas e registradas (...) não são sequer notadas, a não ser que alguém relate e possa provar que tal toxina está sendo verdadeiramente maléfica à pessoa. Essa experimentação em pessoas acontece, mas invisivelmente, sem verificação científica, sem pesquisas, sem estatísticas, sem análise de correlação, numa condição em que as vítimas não são informadas – e com um ônus da prova invertido [para elas]”.
(Ulrich Beck, no livro "Risk society: towards a new modernity"
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