sexta-feira, 16 de abril de 2010

o THC interfere no efeito da olanzapina ou do litio?

Sim, interfere negativamente, pois os canabinoides sabidamente provocam piora dos transtornos neuróticos e psicóticos pré-existentes. Podem também deflagrar manifestações psiquiátricas em pessoas previamente saudáveis. Em suma: não se iluda achando que o THC é uma opção de auto-medicação pra ansiedade, bipolaridade ou outro transtorno psiquiátrico. Concentre-se no esporte e nos estudos. Estimo recuperação rápida e retorno breve.

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sábado, 3 de abril de 2010

Análise do exame do CREMESP 2009 conforme o Manual do National Board of Medical Examiners (NBME)

Há alguns meses eu já havia postado minhas críticas ao Exame do CREMESP.
Pois bem, agora elas tomaram a forma de trabalho científico, cujo resumo e referências bibliográficas podem ser lidos abaixo. Espero que gostem. Aguardo as críticas e sugestões.

Análise do exame do CREMESP 2009 segundo critérios do National Board of Medical Examiners (NBME)

Carlos Fernando Collares, Valdes Roberto Bollela, João Carlos S. Bizário, Waldir Grec, José Lúcio Martins Machado

Curso de Medicina da Universidade Cidade de São Paulo.

INTRODUÇÃO: Desde 2005 o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) realiza anualmente o Exame de Avaliação dos acadêmicos egressos de escolas médicas. Assim o Conselho acredita estar identificando deficiências na formação do médico do Estado de São Paulo e contribuindo efetivamente para a melhoria da qualidade do ensino médico no país. Desde sua implementação existe um caloroso debate sobre a utilização de exames deste tipo para concessão de registros profissionais aos médicos. Em exames decisivos (“high-stakes examinations”) é fundamental que os testes sejam psicometricamente válidos, confiáveis e tenham alto poder discriminativo. Do ponto de vista taxonômico, as avaliações discentes devem ainda mensurar níveis cognitivos elevados, como a capacidade de resolução de problemas em casos clínicos, ao invés da mera memorização de informações.

OBJETIVOS: Avaliar as questões do exame do CREMESP, conforme as orientações do manual de construção de questões do National Board of Medical Examiners (NBME), entidade responsável por exames similares nos Estados Unidos da América há várias décadas.

METODOLOGIA: As 120 questões da primeira fase do Exame de 2009 foram revistas e avaliadas para detecção de questões cujos enunciados não utilizaram casos clínicos, além de erros técnicos de redação identificados como não-conformidades, as quais deveriam ser evitadas conforme o referencial teórico supracitado.

RESULTADOS: Parcela significativa das questões não utilizou casos clínicos em seu enunciado (N=45; 37,50%), o que limita a avaliação de níveis cognitivos mais elevados. Foram encontradas 53 não-conformidades em 41 questões (34,17% da prova). Uma questão apresentou três não-conformidades, 10 questões apresentaram duas não-conformidades e 30 questões, uma não-conformidade. As ocorrências mais comuns foram: questões com enunciado negativo (“exceto”, “não”) (N=10; 8,33%); opções com termos vagos (“freqüentemente”, “geralmente”) (N=9; 7,50%); opções com termos absolutos (ex.: “nunca”, “sempre”, “todas”, “nenhuma”) (N=7; 5,83%) e enunciados “vazios” (“unfocused stems”) (N=7; 5,83%). Dentre as 120 questões, 55 (45,83%) foram consideradas adequadas, seja pelo nível cognitivo mensurado, seja pela ausência de não-conformidades.

CONCLUSÕES: Exames com testes de múltipla escolha, se adequadamente construídos, têm se mostrado uma das melhores estratégias para avaliação cognitiva. Todavia, há dúvidas se tal Exame seria capaz, isoladamente, de concluir sobre a qualidade da formação e a capacidade profissional de futuros médicos. Tais inferências dependem da avaliação de um conjunto de competências dificilmente examináveis por um único método de avaliação. A frequência de problemas técnicos no Exame compromete a justiça da prova (“fairness”), sua validade e confiabilidade, especialmente se houver intenção de utilizá-la para concessão de licença profissional. Além do índice de dificuldade das questões, seria importante também a realização e publicação de análises psicométricas post hoc mais aprofundadas, como os índices de discriminação, a análise fatorial e o alfa de Cronbach, para determinação dos níveis de validade e confiabilidade do Exame. A nota de corte para aprovação deveria ser determinada por métodos específicos, como os de Angoff, Hofstee, Ebel e suas modificações. A disponibilização de um feedback detalhado poderia auxiliar as instituições formadoras na avaliação e requalificação de seus próprios programas. É necessário sistematizar o processo de confecção e análise das questões utilizadas no Exame, bem como ampliar a consonância com as diretrizes curriculares vigentes, no intuito de garantir a qualidade do Exame como instrumento de avaliação dos egressos.



Referências bibliográficas:

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Case SM, Swanson DB. Constructing written test questions for the basic and clinical sciences. 3rd ed (revised). National Board of Medical Examiners, 2002. URL: http://www.nbme.org/PDF/ItemWriting_2003/2003IWGwhole.pdf
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Coderre SP, Harasym P, Mandin H, Fick G. The impact of two multiple-choice question formats on the problem-solving strategies used by novices and experts. BMC Med Educ. 2004 Nov 5;4:23.
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Franzen MD. Reliability and validity in neuropsychological assessment. 2nd. Ed. New York: Kluwer/Plenum, 2004. 465 p.
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domingo, 21 de março de 2010

A melatonina via oral pode causar algum efeito colateral ? ou intoxicação? Por que a ANVISA proíbe sua distribuição?

Também questiono essa proibção da ANVISA, afinal a melatonina (ou N-acetil-5metoxitriptamina)é vendida sem receita em vários países (como bem comentaram no meu formspring), dada sua baixa toxicidade. No portal Visalegis, que contém a legislação sobre Vigilância em Saúde, a única menção à melatonina é a Resolução RE nº 305, de 14 de fevereiro de 2003, que não explica nada, apenas que o registro de medicamentos contendo melatonina é contra a legislação vigentes. E só. Nenhuma explicação. Parece que essa proibição se deu em 1995, devido ao uso que se fazia da melatonina como panacéia anti-envelhecimento. A base teórica para o uso da melatonina para esse fim é seu potente efeito antioxidante e imunomodulatório.

Do ponto de vista prático, a melatonina tem um efeito bem melhor que os benzodiazepínicos, ressincronizando o ciclo circadiano e gerando um sono mais "natural", sem risco de dependência química ou depressão respiratória (o que torna os benzodiazepínicos contraindicados para certas enfermidades psiquiátricas e para a apnéia do sono). O efeito colateral mais comum é a sonolência excessiva. Apesar da necessidade de estudos adicionais, há um temor de que o uso crônico da melatonina possa estar associado ao desenvolvimento parkinsonismo e hiperprolactinemia, o que poderia levar à galactorréia e à ginecomastia. Apesar disso, não vejo problemas no uso eventual e em doses preconizadas (máximo 5mg/dia, o ideal é até 1mg/dia).

Indico melatonina sem medo para pacientes que viajam ao exterior e que querem evitar o "jet lag". Na superdosagem o único efeito colateral que tenho observado é a insônia, pois um dos efeitos da melatonina é aumentar os níveis de noradrenalina no córtex frontal/pré-frontal. Ou seja: uma opção de medicamento que poderia ser muito útil, infelizmente desperdiçada.

sábado, 20 de março de 2010

quais os efeitos do n-hexano no corpo humano ? em que produtos podemos encontrar essa substancia e como evita-la?

Os vapores do n-hexano são irritantes para os olhos e para as vias respiratórias. Em níveis elevados pode provocar dor de cabeça, tonturas, desconforto gástrico e mesmo depressão do sistema nervoso central, com rebaixamento do nível de consciência. Na exposição ocupacional pode levar à neuropatia periférica, com formigamento ou queimação de extremidades e fraqueza. Há diversos outros efeitos relatados. Esses são apenas os mais comuns. Hoje em dia há bem menos produtos contendo hexano, mas ele poderá ser encontrado ainda em algumas colas, adesivos, tintas, vernizes e lacas como solvente da fórmula.

Como o controle sobre isso é ainda muito insuficiente, desconfio que muitas formulações comerciais podem exceder o limite de concentração benzeno, que já é alto (1%). O benzeno é aquele hidrocarboneto aromático que foi oficialmente banido, mas que na prática continua sendo encontrado até em gasolina adulterada. O banimento oficial, apesar de parcial (pois o benzeno ainda é permitido para certos fins), realmente reduziu os níveis de exposição pré-existentes.

Mesmo ainda sendo alvo de bastante estudos por pesquisadores brasileiros, o benzeno foi bastante esquecido por pela maioria dos profissionais e educadores médicos. Causa de malignidades hematológicas e aplasia de medula óssea, não tem limite seguro para exposição, realmente requerendo seu banimento, apesar dos limites oficiais, pouco controlados.

Atendo muitos pacientes anêmicos e leucopênicos (com poucos leucócitos, "glóbulos brancos do sangue"), que expostos ocupacionalmente à produtos à base de hidrocarbonetos, como é o caso do n-hexano. Os rótulos desses produtos muitas vezes ostentam o texto "NÃO CONTÉM BENZENO". Como a anemia e a leucopenia podem ser um sinal de aplasia medular, suspeito que uma boa parte desses produtos possa estar contaminado com mais benzeno que o rótulo sugere.

Curioso é quando temos hemogramas recentes normais, se realizados e pagos pela empresa, como parte do PCMSO; e alterados, quando feitos no laboratório do hospital... Já que perguntar não ofende: há algum controle contra esse tipo de fraude? Se alguém conhecer, me conta...

O ideal é a utilização no ambiente de trabalho de equipamentos de proteção coletiva (enclausuramento, ou "hermetização" do processo) e individual tanto quanto possível (luvas, óculos, máscaras bico de pato com carvão ativado.)

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sexta-feira, 5 de março de 2010

formspring.me

segue alguma doutrina religiosa?

Sim. Apesar de todo o histórico ruim, confesso: sou Católico Apostólico Romano. Mas não curto adoração de imagens, o que me aproxima dos evangélicos. E acredito em espíritos, o que me aproxima dos espíritas. No final, acabo sendo um sincretista, como todo bom brasileiro.

O CEATOX consegue identificar se uma pessoa foi intoxicada "acidentalmente" por umas gotinhas de botox colocadas em seu suco?

O CEATOX não, mas o IML sim. Agora vai colocar botox no seu suco, não no meu.

É verdade que o Fabio Assunção é viado?

Como haveria de saber? Sei apenas que está cuidando de um problema de dependência quimica. Desejo boa sorte a ele nessa empreitada.

Qual o nome da tribo indigena que não consegue perceber a relação de causa e efeito? Você colocou em uma das suas apresentacoes sobre o DDT

São os Xoklengs.

prazer henrique collares !

Olá. Família grande a nossa, hein?

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ciclo Circadiano, Melatonina e Depressão

Fiz esta palestra em pleno verão do Rio de Janeiro ano passado para alguns executivos estrangeiros que queriam saber minha opinião sobre a transmissão melatonérgica. Foi um bom momento, que quase mudou minha carreira pra longe da educação de futuros médicos. Hoje pensei que foi bom não ter dado certo.

Minha opinião é de que o novo agonista melatonérgico com antagonismo serotoninérgico seletivo para receptores 5-HT2C, a agomelatina, parece funcionar bem e com poucos efeitos colaterais se comparada a outros fármacos.

Penso que medicamentos com mecanismo de ação similar podem ser eventualmente úteis para uma parcela dos pacientes em que os problemas do sono estejam associados.

Porém, acompanho os relatos de usuários de agomelatina na internet (http://www.erowid.org) e os relatos são bem heterogêneos.

Há muita gente gostando da eficácia do medicamento e sua boa tolerabilidade quando comparado a antidepresivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina e os tricíclicos, mais antigos.

Por outro lado, sonolência excessiva e ansiedade paradoxal são experiências também descritas em alguns relatos.

Como não há um grupo controle (placebo) para comparação, não dá pra afirmar muita coisa ainda. Há muita "polifarmácia" nesses relatos pessoais (em inglês classificam a evidência oriunda desses relatos como "anecdotal"), o que deixa mais complicado defender ou acusar a agomelatina tanto de efeitos benéficos quanto maléficos.

Saiu um artigo no final de 2009 "tocando o sarrafo" na agomelatina e defendendo a volta dos tricíclicos, p(h)ode uma coisa dessas?

Não tinha link pra texto online e a redação era sofrível. No resumo, além de listar alguns efeitos colaterais conhecidos da agomelatina, como hepatotoxicidade, ele apontou que 3 dos 4 estudos realizados até a redação desse texto não mostraram eficácia da agomelatina. Todavia, penso que esse autor não tenha conseguido realizar uma meta-análise “desapaixonada”, mais isenta, e não a partir de opinião pessoal.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"O Cortiço" e o tiro no pé: o caso das indústrias de agrotóxicos e seus esforços de marketing

Há algum tempo eu havia postado uma reportagem sobre agrotóxicos adulterados pela Milenia e a ação conjunta da Polícia Federal e da ANVISA.

Agora, depois de muito tempo do ocorrido, resolvi reproduzir nos links abaixo duas notícias encontradas no site da ANVISA, sobre irregularidades envolvendo a Syngenta - clique aqui - e a Bayer - clique aqui. Faço isso não apenas para ajudar a disseminar essa informação sobre certas práticas de alguns integrantes da indústria de agrotóxicos, mas também para compartilhar uma reflexão com vocês leitores.

É importante ressaltar que o setor produtor de agrotóxicos denomina seus produtos "defensivos agrícolas", na tentativa de tirar do nome desses produtos qualquer vestígio do seu potencial nocivo, apesar da legislação vigente que define claramente tais substâncias como agrotóxicos.

Ironicamente, logo após 1 milhão de quilos de agrotóxicos da Syngenta apreendidos pela ANVISA, a Revista Época oferece um prêmio ambiental para a mesma Syngenta...
Essa situação sui generis me fez lembrar daquele livro do Aluísio Azevedo, "O Cortiço", clássico escolar, em que, apesar do viés demasiadamente determinista-naturalista (e quiçá racista), ilustra de forma magistral a dissociação, o desacoplamento entre a prática pública e particular.

(SPOILER ALERT, não leia este parágrafo se não quiser estragar sua leitura do livro)

Em situação perfeitamente análoga a de certas empresas cujos esforços de relações públicas pretendem exaltar sua suposta responsabilidade socioambiental, o personagem central de "O Cortiço", João Romão, é homenageado como abolicionista benemérito logo após a escrava Bertoleza cometer o suicídio ao descobrir que sua carta de alforria era um engodo.

(FIM DO SPOILER ALERT. Você que incrivelmente passou pela escola incólume, sem ler "O Cortiço", pode retomar sua leitura a partir daqui)

Essa prática tem até nome em inglês ("decoupling" ou desacoplamento) e é definida em ciência organizacional, particularmente nos estudos de "nova teoria institucional", como "a criação e a manutenção de disparidades entre as políticas formais e as reais práticas organizacionais"(MEYER e ROWAN, 1977).

É como se funcionasse nas corporações a famosa "formação reativa" - o mecanismo de defesa do ego associado a inversão de comportamentos e sentimentos, de forma diametralmente oposta ao desejo real.

Pelo que temos visto de práticas corporativas inaceitáveis, é possível que, por psicologia reversa involuntária, a sociedade - que não é tão ingênua - perceba que essas iniciativas de marketing que procuram vender a imagem das empresas como cidadãs e éticas, podem ser, na verdade, uma mera estratégia de obtenção de legitimidade social.

Curioso notar que o caso da Syngenta chega às raiais do tragicômico: até Circuito de Viola eles estão patrocinando, com o beneplácito do Ministério da Cultura. Tem maior chancela oficial de que eles são "mocinhos"? Deve ter sido um êxtase para a empresa e responsáveis pela sua imagem corporativa.

Mais ingenuidade do que achar que as empresas são boazinhas e estão mais preocupadas com a saúde e o ambiente do que com seus lucros, só mesmo acreditar que o Estado é um paizão super legal e que todos os artigos científicos são livres de cooptação...

Não duvido que existam iniciativas verdadeiras de responsabilidade socioambiental; todavia, como é difícil verificar se a ética permeia todas as práticas corporativas e não apenas essas iniciativas que considero como "fachada", é possível que muitas pessoas se percam no fluxo de informação e acabem comprando a falsa imagem de "beneméritas" que essas empresas querem nos vender.

Como educador é meu dever acreditar no potencial de evolução de todos... Então quem sabe, aos poucos, a Syngenta, a Bayer e a Milenia não aprendem a fazer as coisas certas?

Só espero que nossa população com tão poucas oportunidades educacionais não acabe como a pobre Bertoleza - eviscerada por si mesma para não perder a liberdade, mas que bem lá no fundo, se colocou nessa situação fatal ao se deixar enganar pela conversa fiada do galã explorador sem escrúpulos que resolveu repentinamente virar "nobre".

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Caso os links saiam do ar, os textos estão abaixo:

Brasília, 28 de setembro de 2009 - 9h25
Fiscalização apreende agrotóxicos adulterados na Bayer

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária interditou, na última sexta-feira (24), 1 milhão de litros de agrotóxicos adulterados, em Belford Roxo (RJ). A fiscalização, realizada pela Agência com apoio da Polícia Federal, ao longo de toda semana passada na empresa Bayer, de origem alemã, identificou a produção de agrotóxicos com formulação adulterada, sem autorização dos órgãos competentes.
No total foram encontradas irregularidades em 12 agrotóxicos. O caso mais grave, identificado pela Agência, foi a importação do ingrediente ativo do agrotóxico Procloraz e a produção do agrotóxico comercial Sportak 450 EC, sem controle obrigatório de impurezas toxicologicamente relevantes. A falta desse controle pode causar câncer nos trabalhadores expostos ao agrotóxico e na população que ingere alimentos contaminados com tais produtos.

A interdição é valida por 90 dias, prazo em que os produtos não poderão ser produzidos nem comercializados. Caso sejam comprovadas as irregularidades, a empresa poderá pagar multa de até R$ 1,5 milhão por irregularidade.

No começo do ano, a Bayer, segunda maior empresa no segmento de agrotóxicos em todo mundo em 2008, teve o registro do agrotóxico Evidence (imidacloprido) cancelado. O produto, usado nas culturas de cana de açúcar e fumo, era produzido com adulteração na fórmula.

Adulteração

Agrotóxicos são produtos com alto risco para saúde e meio ambiente e, por isso, sofrem restrito controle de três órgãos de governo: Anvisa, IBAMA e Ministério da Agricultura. Alterações na fórmula desses produtos aumentam significativamente as chances do desenvolvimento de diversos agravos à saúde como câncer, toxicidade reprodutiva e desregulação endócrina em trabalhadores rurais e consumidores de produtos contaminados.

Só este ano, a Anvisa já apreendeu, 4,5 milhões de litros de agrotóxicos adulterados. As fiscalizações ocorrem, principalmente, quando são identificados indícios de irregularidades nos produtos acabados.

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Brasília, 5 de outubro de 2009 - 9h50
Fiscalização apreende 1 milhão de quilos de agrotóxicos na Syngenta

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interditou cerca de 1 milhão de quilos de agrotóxicos com irregularidades e adulterações, na fábrica da empresa Syngenta, de origem suíça, em Paulínia (SP). Os problemas foram encontrados após fiscalização da Agência, realizada na última semana.

Após três dias nas instalações da maior empresa em vendas de agrotóxicos no Brasil e no mundo no ano de 2008, a equipe da Anvisa encontrou várias irregularidades na importação, produção e comércio de produtos agrotóxicos. A ação contou com apoio da Polícia Federal.

Do total de produtos interditados, 600 mil kg correspondiam a agrotóxicos e componentes com datas de fabricação e de validade adulteradas. Esses produtos não poderão ser utilizados ou comercializados até que se restituam as datas verdadeiras de produção e de validade.

A empresa também foi autuada por destruição total das etiquetas de identificação de lote, data de fabricação e de validade do agrotóxico Flumetralin Técnico Syngenta, igualmente interditado. Vários lotes do mesmo produto também foram interditados por apresentarem certificado de controle de impurezas sem assinatura, data da sua realização ou com data de realização anterior à produção do lote analisado.

O controle de impurezas toxicologicamente relevante no Flumetralin Técnico é obrigatório uma vez que tais impurezas são reconhecidamente carcinogênicas e capazes de provocar desregulação hormonal. Também foram interditados todos os lotes do produto PrimePlus, formulados com os lotes interditados do Flumetralin Técnico.

Outro produto técnico interditado com o certificado de análise insatisfatório (sem assinatura e sem a quantidade real de ingrediente ativo) foi o Score Técnico. Já o agrotóxico Verdadeiro 600 teve as embalagens interditadas por confundir o agricultor quanto ao perigo do produto. Apesar de ser da classe toxicológica mais restritiva, as cores dos rótulos do referido agrotóxico induziam o agricultor a concluir que o produto poderia ser pouco tóxico.

A Syngenta também foi autuada por venda irregular do agrotóxico Acarmate (Cihexatina). A fiscalização da Anvisa identificou que o produto, com venda restrita ao estado de São Paulo, era comercializado para outros estados.

A empresa foi notificada, ainda, a efetuar alterações no sistema informatizado que possui de modo que seja possível controlar efetivamente, lote a lote, a quantidade dos componentes utilizados nos Produtos Formulados. Dentro de 30 dias, a empresa está sujeita a nova fiscalização para verificação do cumprimento das condições estabelecidas na notificação.

As infrações encontradas podem ser penalizadas com a aplicação de multas de até R$1,5 milhão e com o cancelamento dos informes de avaliação toxicológica dos agrotóxicos em que foram identificadas tais irregularidades. Em caso de possibilidade de outras infrações além das administrativas, a Anvisa encaminha representação à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal para possível investigação criminal.

Adulteração

Agrotóxicos são produtos com alto risco para saúde e meio ambiente e, por isso, sofrem restrito controle de três órgãos de governo: Anvisa, IBAMA e Ministério da Agricultura. Alterações na fórmula desses produtos aumentam significativamente as chances do desenvolvimento de diversos agravos à saúde como câncer, toxicidade reprodutiva e desregulação endócrina em trabalhadores rurais e consumidores de produtos contaminados.

Só este ano, a Anvisa já apreendeu, 5,5 milhões de litros de agrotóxicos adulterados. As fiscalizações ocorrem, principalmente, quando são identificados indícios de irregularidades nos produtos acabados.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Farmacocinética básica

Esta aula de Farmacocinética é bem básica, mas auxilia um pouco o processo de aprendizagem do tema. Sugiro associar com exercícios de aplicação clínica. Aceito sugestões e colaborações para melhoria da aula, como sempre. Uma pena que durante a conversão para o slideshare, tenha havido uma mudança na cor dos títulos de amarelo para preto, o que prejudica um pouco a legibilidade.

Farmacovigilância básica

Se você sempre quis saber como identificar se uma manifestação clínica é um efeito colateral, esta aula é pra você. São informações básicas, incompletas, mas que podem ajudar a reflexão sobre o tema. Aceito sugestões para melhoria. Sintam-se livres para colaborar.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

formspring.me

Você continua um humorista de mão cheia como na época da universidade?

Essa resposta é séria. Continuo sim, porém com um caráter mais professoral. Por isso, as tiradas, apesar de mordazes, são cada vez mais motivadoras e inspiradoras do que em Florianópolis. Deve ser fruto do amadurecimento doloroso e precoce, pois os casos atendidos levam a isso naturalmente. Já pensei em fazer uma série de shows do tipo standup comedy só com o material oriundo de mais de 2000 casos de overdose atendidos. Seria hilário, mas teria que largar a medicina e mudar detalhes pitorescos que poderiam identificar as pessoas, para não atentar contra a ética profissional. Pena que daí perde a graça. Beijos zigomáticos.

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