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Este artigo traduzido faz parte dos meus estudos de doutorado. Ele fornece um referencial teórico importante para estudantes e professores...

domingo, 21 de fevereiro de 2016

SUS, HERÓI OU VILÃO?

Durante o curso de Medicina os estudantes são preconizados, diria até condicionados a idolatrar um Deus, o Deus SUS. Não se pode criticá-lo. Criticar o SUS é uma heresia. Pode até custar ao aluno alguma reprovação.

É irônico, tragicômico até, constatar que apesar da gradual degradação da qualidade dos atendimentos ao longo das décadas de funcionamento do SUS, da precarização das condições de trabalho e dos calotes frequentes nos salários dos profissionais que no SUS atuam, o pensamento hegemônico em prol do SUS continue sendo tão robusto e o número de médicos discordantes do SUS, tão baixo. As novas diretrizes curriculares dos cursos de Medicina são totalmente direcionadas para enaltecer as supostas qualidades do SUS. Os alunos são treinados para enaltecer e prestigiar aquilo que, em última análise, tem sido a causa de sua própria ruína, depois que se formam.

O SUS é um gigantesco mastodonte, indiretamente imposto pela Constituição, que, na maior parte dos casos, pisa com força e acaba por esmagar os profissionais que nele atuam e a população que supostamente deveria ser ajudada. Mas, infelizmente, o mastodonte Deus SUS parece ser dotado de invisibilidade para a maior parte das pessoas que está pisotear e sufocar.

Quando falta dipirona, penicilina, soro, leito, vaga em UTI e profissionais de saúde são poucos os que ousam apontar o SUS como a causa do problema. Quando pessoas morrem na fila de espera para um atendimento de urgência, para uma cirurgia oncológica ou para um transplante, são poucos os que conseguem enxergar o SUS como culpado. Quando diversos hospitais fecham em sequência, poucos têm coragem de acusar o SUS. Eu acuso o SUS não apenas como um suspeito, mas como o grande vilão.




O SUS como é hoje tem que acabar. Consigo até imaginar o forte grau de comoção que certos leitores sentiram ao ler essa frase. O SUS um modelo anacrônico, utópico, irracional, insustentável e muito, mas muito opressor.

O Deus SUS oprime os profissionais da saúde, os quais acabam servindo - conscientemente ou não - de massa de manobra por políticos eleitoreiros. Mas as principais vítimas do Deus SUS são principalmente a população que sofre com a superlotação, com macas em corredores e com a dificuldade de acesso à procedimentos diagnósticos e terapêuticos verdadeiramente resolutivos.
Universalidade e integralidade são princípios do SUS muito bonitos na teoria, mas na prática, a teoria é outra. No fundo, bem lá no fundo, imagino todos saibam qual é a raiz dos problemas embora não queiram enfrentar a dura realidade de que ao invés de dar dignidade aos profissionais e à população, o SUS acabou por fazer o contrário do que fora almejado e prometido: escravizou profissionais e pacientes a conviverem com as situações mais indignas possíveis.

Antes de defender o SUS com unhas e dentes (ou antes de começar a me atacar pessoalmente), pense em todas as vítimas que padeceram por causa do SUS. Pense no bebê que morreu por falta de máscara respiratória. Pense na pessoa com câncer que morreu sem diagnóstico ou tratamento. Pense no médico que teve que escolher qual paciente precisou salvar por falta de equipamentos. Pense no enfermeiro agredido por um familiar de paciente irritado com a demora no atendimento. Pense no diretor clínico que é pressionado a dar alta para pacientes ainda em risco de óbito apenas para dar lugar aos pacientes que estão chegando.

É claro que há um contraponto que temos que reconhecer: há histórias bonitas de sucesso no SUS? Há sim. Mas essas são as raras exceções que só fazem confirmar a regra. De modo geral, o que se vê é desgraça, tragédia, enganação e politicagem.

Que fique claro: não é contra você, trabalhador do SUS, que estou escrevendo essa mensagem. É em seu favor, por mais difícil que seja compreender.

Há muitos profissionais no SUS extremamente dedicados e competentes que "fazem das tripas coração", dando o melhor de si apesar dos pesares, e que ainda não se deixaram contaminar pelo cinismo, pela burocracia e pela desesperadora falta de condições de trabalho. Sim, eles existem e até acredito que ainda sejam a maioria. Quero acreditar que eu era um médico desse tipo nos 9 anos em que trabalhei no SUS. Período este que só acabou quando finalmente percebi que ao dar o melhor de mim nos atendimentos estava apenas contribuindo para esse calamitoso estado das coisas. Não aguentei mais viver uma situação na qual os políticos faturavam votos nas minhas costas sem o menor merecimento enquanto eu tinha que fazer malabarismos para evitar que pessoas de idade avançada precisassem ser atendidas no chão por falta de leitos. Trabalhadores e pacientes eram os perdedores da história e os únicos vencedores ao final eram os políticos.

Sei que ser contra o SUS é algo extremamente impopular. Sei que manifestar essa opinião abertamente poderá me causar problemas, represálias e mesmo fechar portas profissionais. Serei mal visto e mal interpretado. Podem me julgar. Podem me tornar um pária. Podem me impingir um estigma indelével. Podem pedir minha cabeça. Não me importo. Especialmente se meus críticos forem de alguma torre de marfim dos departamentos de Saúde Pública e Saúde Coletiva das universidades públicas. São esses os ideólogos do genocídio implícito, sutil, e que dificilmente será reconhecido, mas que inegavelmente foi perpetrado pelo SUS, por mais que apresentem estatísticas mirabolantes para provar o contrário.

Minha consciência está limpa, cristalina. Será que nesses ideólogos do SUS ainda resta uma consciência, uma bússola moral, para refletir sobre os resultados reais de suas ideias e ações? Espero que sim. Espero que não estejamos lidando com monstros morais.

É possível ter um sistema de saúde melhor, mais justo e mais eficiente e que ainda por cima custe menos? É possível. Outros países estão cheios de exemplos bem sucedidos. Mas para que uma mudança positiva ocorra é necessária uma transformação não apenas do sistema de saúde, e talvez também da educação médica, mas da consciência da pessoas em reconhecer, ainda que muito tardiamente, que o SUS é um experimento que não deu nem nunca dará certo e que um outro tipo de modelo de assistência, moderno e eficaz, deve urgentemente ser buscado. Não se trata de ideologia apenas, mas de pragmatismo e de ética. O povo tem pressa. Passou da hora de se consertar a assistência à saúde no Brasil. Acabar com o SUS e substituí-lo por um modelo radicalmente novo deveria ser considerado um imperativo ético.

C. F. Collares
20/02/2016
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