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Este artigo traduzido faz parte dos meus estudos de doutorado. Ele fornece um referencial teórico importante para estudantes e professores...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Em homenagem aos 25 anos da queda do Muro de Berlim, histórias da Tia Adelle


Uma das coisas que marcou muito a minha infância foi a visita de uma tia distante da Alemanha Oriental, a tia Adelle Rost. Como eu era muito pequeno na época para poder contar essa história corretamente hoje, em homenagem aos 25 anos de queda do Muro de Berlim, pedi pra minha mãe, Maria Beatriz Kumm Collares, contar com mais detalhes como foi essa visita. Tia Adelle foi um testemunho vivo para nós do que era o socialismo real antes do Muro cair. Este é o relato que a minha mãe me enviou:

"Toda família tinha expectativa pela chegada da Tia Adelle. Para poder sair da Cortina de Ferro imposta à Alemanha Oriental pela União Soviética, Tia Adelle teve muito trabalho. Foram necessárias muitas comprovações e extensos laudos médicos para que os comunistas finalmente dessem permissão para que a tia viesse ao Brasil - precisou provar que tinha um familiar que estava para morrer. É claro que isso só foi possível após a apresentação das passagens compradas com o dinheiro dos familiares. Seu primo Nelsinho foi buscá-la no "Checkpoint Charlie".

Ela era de Joinville, como sua avó Helga, e seu marido era alemão. Eles casaram, deixaram Joinville, e foram morar na Alemanha. Vó Helga me contou que ele tinha uma úlcera grave mas mesmo assim ele foi convocado a fazer consertos nos fios de telégrafo e de luz. Durante um bombardeio,não resistiu e faleceu. Quando os soviéticos, na sua suposta ação pela liberdade da Alemanha, tomaram o controle do governo e implementaram o socialismo, deram-lhe a possibilidade de voltar para o Brasil, mas sem a filha, que tinha nascido lá. É claro que ela optou por ficar com a filha e então teve que viver lá mesmo, afastada de toda a família no Brasil.

Minha convivência com ela foi breve mas muito marcante e inesquecível. Ela chegou em nossa casa em um final de tarde junto com a Oma do seu pai e a sua avó Helga. Ela era alta, sorridente, bochechas rosadas, e as pernas arqueadas pelo trabalho intenso no campo. Plantava pêssegos e maçãs, e olhava tudo com uma curiosidade infantil. Era notável a imensa alegria da Tia Adelle por finalmente poder conhecer uma parte da família, apesar de trazer no olhar a dor de uma separação de décadas. Na mão ela trazia embrulhado em um pedaço de papel um lenço branco com as bordas de renda, um presente que recebi com muito carinho.

Quando chegou, sentou ao lado da Oma, mas logo em seguida, levantou, caminhou até a parede que dá para a casa do vizinho, encostou a orelha na parede e ficou assim alguns segundos, diante dos nossos olhares perplexos. Em seguida, veio a justificativa:

- Será que tem algum espião tentando escutar a nossa conversa?

- Não, tia, aqui não tem espiões.

Ela respondeu em seu português quase perfeito, treinado todos os dias diante do espelho durante trinta e seis anos de prisão socialista para que não esquecesse suas raízes brasileiras:

- Vai saber, eles estão em todos os lugares! Às vezes os filhos são espiões e os pais não sabem. Os espiões chegam a fazer refeições conosco! Tudo pra ter certeza que não estávamos sofrendo nenhuma influência do ocidente imperialista!

Tia Adelle ficou no Brasil todos os dias que lhe concederam, mas na hora de voltar, pois ela não podia deixar seus netos e filha para trás, os comunistas não queriam que voltasse. Ela era velha para o trabalho, e por isso queriam descartá-la e assim ficar com as terras que sempre tinham sido de propriedade dela e cujo direito de uso havida sido "concedido" pelo governo comunista. A filha dela dependia das terras.

Ela voltou, mas faleceu alguns meses depois. Soube que ela manteve muito bem escondido os documentos de propriedade das terras que cultivava e assim, a filha e netos depois puderam comprovar que eram os legítimos donos.

Volta e meia a Vó Helga e a Oma recebiam cartas dela e é claro que todas chegavam abertas, violadas.

No Brasil ela também comeu carne bovina que a décadas não sentia mais o sabor, viu revistas de costura da vó Helga, as revistas Burda, às quais nunca tinha tido acesso pois estimulavam o consumismo maligno do Ocidente. Ela falou que ficava muito tempo esperando um pedaço de tecido, e outras coisas básicas. Então eu fui na antiga Loja Giorama, e comprei para ela vários tecidos coloridos, inclusive com motivos brasileiros, como palmeiras, papagaios e praias.

Ela falou como era viver com medo, como era difícil saber que os amigos ficaram do outro lado, falou da alegria de estar aqui, da dor de voltar, mas que nunca poderia ficar longe da família que havia deixado na Alemanha. Ah, mano, e ela também falou que os dirigentes volta e meia decidiam que profissão os jovens deveriam seguir e onde deviam trabalhar e morar... Davam pouco e cobravam muito em troca. Depois eu conto mais histórias da Tia Adelle... Beijo, mano... te amo!"
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