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Autoeficácia nas palavras do próprio Albert Bandura

Este artigo traduzido faz parte dos meus estudos de doutorado. Ele fornece um referencial teórico importante para estudantes e professores...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Em homenagem aos 25 anos da queda do Muro de Berlim, histórias da Tia Adelle


Uma das coisas que marcou muito a minha infância foi a visita de uma tia distante da Alemanha Oriental, a tia Adelle Rost. Como eu era muito pequeno na época para poder contar essa história corretamente hoje, em homenagem aos 25 anos de queda do Muro de Berlim, pedi pra minha mãe, Maria Beatriz Kumm Collares, contar com mais detalhes como foi essa visita. Tia Adelle foi um testemunho vivo para nós do que era o socialismo real antes do Muro cair. Este é o relato que a minha mãe me enviou:

"Toda família tinha expectativa pela chegada da Tia Adelle. Para poder sair da Cortina de Ferro imposta à Alemanha Oriental pela União Soviética, Tia Adelle teve muito trabalho. Foram necessárias muitas comprovações e extensos laudos médicos para que os comunistas finalmente dessem permissão para que a tia viesse ao Brasil - precisou provar que tinha um familiar que estava para morrer. É claro que isso só foi possível após a apresentação das passagens compradas com o dinheiro dos familiares. Seu primo Nelsinho foi buscá-la no "Checkpoint Charlie".

Ela era de Joinville, como sua avó Helga, e seu marido era alemão. Eles casaram, deixaram Joinville, e foram morar na Alemanha. Vó Helga me contou que ele tinha uma úlcera grave mas mesmo assim ele foi convocado a fazer consertos nos fios de telégrafo e de luz. Durante um bombardeio,não resistiu e faleceu. Quando os soviéticos, na sua suposta ação pela liberdade da Alemanha, tomaram o controle do governo e implementaram o socialismo, deram-lhe a possibilidade de voltar para o Brasil, mas sem a filha, que tinha nascido lá. É claro que ela optou por ficar com a filha e então teve que viver lá mesmo, afastada de toda a família no Brasil.

Minha convivência com ela foi breve mas muito marcante e inesquecível. Ela chegou em nossa casa em um final de tarde junto com a Oma do seu pai e a sua avó Helga. Ela era alta, sorridente, bochechas rosadas, e as pernas arqueadas pelo trabalho intenso no campo. Plantava pêssegos e maçãs, e olhava tudo com uma curiosidade infantil. Era notável a imensa alegria da Tia Adelle por finalmente poder conhecer uma parte da família, apesar de trazer no olhar a dor de uma separação de décadas. Na mão ela trazia embrulhado em um pedaço de papel um lenço branco com as bordas de renda, um presente que recebi com muito carinho.

Quando chegou, sentou ao lado da Oma, mas logo em seguida, levantou, caminhou até a parede que dá para a casa do vizinho, encostou a orelha na parede e ficou assim alguns segundos, diante dos nossos olhares perplexos. Em seguida, veio a justificativa:

- Será que tem algum espião tentando escutar a nossa conversa?

- Não, tia, aqui não tem espiões.

Ela respondeu em seu português quase perfeito, treinado todos os dias diante do espelho durante trinta e seis anos de prisão socialista para que não esquecesse suas raízes brasileiras:

- Vai saber, eles estão em todos os lugares! Às vezes os filhos são espiões e os pais não sabem. Os espiões chegam a fazer refeições conosco! Tudo pra ter certeza que não estávamos sofrendo nenhuma influência do ocidente imperialista!

Tia Adelle ficou no Brasil todos os dias que lhe concederam, mas na hora de voltar, pois ela não podia deixar seus netos e filha para trás, os comunistas não queriam que voltasse. Ela era velha para o trabalho, e por isso queriam descartá-la e assim ficar com as terras que sempre tinham sido de propriedade dela e cujo direito de uso havida sido "concedido" pelo governo comunista. A filha dela dependia das terras.

Ela voltou, mas faleceu alguns meses depois. Soube que ela manteve muito bem escondido os documentos de propriedade das terras que cultivava e assim, a filha e netos depois puderam comprovar que eram os legítimos donos.

Volta e meia a Vó Helga e a Oma recebiam cartas dela e é claro que todas chegavam abertas, violadas.

No Brasil ela também comeu carne bovina que a décadas não sentia mais o sabor, viu revistas de costura da vó Helga, as revistas Burda, às quais nunca tinha tido acesso pois estimulavam o consumismo maligno do Ocidente. Ela falou que ficava muito tempo esperando um pedaço de tecido, e outras coisas básicas. Então eu fui na antiga Loja Giorama, e comprei para ela vários tecidos coloridos, inclusive com motivos brasileiros, como palmeiras, papagaios e praias.

Ela falou como era viver com medo, como era difícil saber que os amigos ficaram do outro lado, falou da alegria de estar aqui, da dor de voltar, mas que nunca poderia ficar longe da família que havia deixado na Alemanha. Ah, mano, e ela também falou que os dirigentes volta e meia decidiam que profissão os jovens deveriam seguir e onde deviam trabalhar e morar... Davam pouco e cobravam muito em troca. Depois eu conto mais histórias da Tia Adelle... Beijo, mano... te amo!"

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

FASCISMO DE DIREITA X FASCISMO DE ESQUERDA



Uma boa metáfora do que está acontecendo no Brasil neste período pós-eleitoral pode ser encontrado no experimento psicológico-educacional realizado em crianças na década de 1970, pela Professora Jane Elliot, tendo como base um discurso de ódio artificialmente criado, o qual tinha como base a discriminação de acordo com a cor dos olhos. Nos inúmeros vídeos disponíveis na internet, é possível perceber como o discurso de ódio é facilmente assimilado e reproduzido.
Este experimento mostra de forma bem clara que o ato de generalizar as pessoas em grupos sociais criados arbitrariamente é o solo no qual as idéias fascistas germinam. Ao despir as pessoas de sua individualidade por meio de rótulos, abre-se o espaço para desumanizá-las - e é dessa desumanização que decorre a vilificação e a demonização das pessoas pertencentes a tais grupos. Após a devida satanização, sobram pretextos que são usados para justificar a existência dos discursos de ódio e mesmo a prática da violência extrema, que pode ser promovida ou consentida tanto por entidades estatais quanto por grupos para-estatais de apoio ou de oposição a governos. Dito isto, o Brasil deve se lembrar de três fatos fartamente divulgados pela mídia agora em risco de ser "regulada", "democratizada" e "socialmente controlada": 1) Quem colocou a culpa da crise no Brasil na "elite branca"? Lula. 2) Quem usou discurso de ódio contra a classe média? Marilena Chauí, filósofa petista, contando com o sorriso de aprovação de Lula. 3) Quem estimulou o ódio contra todos os médicos brasileiros, classificando-os como desumanos por discordarem do sistema de trabalho quase escravagista dos colegas cubanos que vieram trabalhar no Brasil sem diploma revalidado? Dilma.
Como se pode inferir, no caso de Aécio, há alguns eleitores com visões fascistas de direita - idéias com as quais ele não coaduna e quer distância. Há um recrudescimento no fascismo de direita, mas ele é rejeitado pelo candidato social democrata - insistentemente vendido como um representante à direita no espectro político pelo petismo, apesar das origens europeias da social democracia tucana posicionarem o PSDB como centro por definição. Por outro lado, é muito triste mas inevitável constatar que é parte fundamental da estratégia política do PT a promoção de uma nova forma fascismo de esquerda, que generaliza e promove o ódio contra a classe média (nem toda classe média é violenta, fascista e ignorante, como diz a sra. Chauí), contra a elite (geralmente as elites são fatores importantes para impulsionar a prosperidade de seus países e não são necessariamente más) e contra os médicos (a maioria dos médicos é humana e competente apesar das péssimas condições de trabalho e da remuneração vil).
Esta forma de fascismo de esquerda usou o mesmo tipo de discurso na Venezuela, com resultados notoriamente desastrosos. O que acontece na Venezuela, e que está acontecendo aqui e agora, neste período pós-eleitoral, é a utilização das declarações de uma pequena parte do eleitorado de oposição para que todos os descontentes sejam generalizados como portadores dessa visão tacanha de mundo, tentando envergonhá-los com o carimbo de "racistas", "nazistas" e "preconceituosos". Ou seja, estão pisando no acelerador do fascismo de esquerda ao tentar colar a imagem do fascismo de direita em Aécio, artificialmente forçando uma divisão ainda maior do país entre "nós e eles". E esta é uma sequela do processo eleitoral criticada por pessoas de todas as matizes ideológicas.
Nada mais imprudente e perigoso do que insistir no discurso divisivo. Ao omitir fatos importantes e inverter papéis, pode-se afirmar sem dúvidas que muitos petistas hoje estão, aparentemente sem perceber, bebendo do mesmo fascismo que supostamente pretendem denunciar.
Se há fascismo de direita, ele é ocasional e rechaçado politicamente pelo candidato social democrata. Já o fascismo de esquerda é onipresente, mas não escandaliza, não é alvo de denúncias por parte da oposição, e tampouco é reconhecido como tal. Todavia, temo que o atual fascismo de esquerda seja ainda mais perigoso que o de direita por ter sido abraçado como parte fundamental da estratégia política do partido no poder. Essa estratégia é lamentável e extremamente frustrante, pois vem do lado do espectro político que, ao menos em tese (ou em "marketing"), é o lado "progressista" e "do bem".
O Ouroboros, símbolo que mostra um dragão mordendo a própria cauda, é uma boa analogia para a atual situação política brasileira. Tal qual o dragão mitológico, os extremos do espectro político, tanto à esquerda quanto à direita, se tocam em aspectos como a intolerância, o autoritarismo, a discriminação preconeituosa e a violência. Retomar a moderação da Carta ao Povo Brasileiro, que permitiu a ascenção de Lula ao poder, faria bem ao Brasil e ao PT, que poderia se reconciliar com uma parcela importante do eleitorado perdido nestas eleições, o qual claramente rejeitou a opção tomada pelo PT rumo ao radicalismo, opção esta reafirmada pelo governo nos dias que se seguiram ao pleito. A lição que Jane Elliott ensinou com seu experimento ainda precisa ser aprendida por brasileiros de todas as preferências políticas, especialmente no Brasil fraturado que temos hoje: toda discriminação é ruim pois a menor minoria é sempre o indivíduo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Uma das premissas da ANOVA é a distribuição normal. Testo a normalidade em cada grupo ou com todos os grupos juntos?

Adoro responder e-mails assim. Às vezes até faço a análise para a pessoa e dou minhas idéias e opiniões muito além do que foi perguntado. Por isso, peço licença ao leitor R. e publico no blog a resposta que lhe enviei por e-mail. Espero que seja útil para R. e para todos os meus milhares de leitores. Aí vai:

O ideal em qualquer comparação de grupos por testes paramétricos (como o ANOVA e o teste t) é você ter GRUPOS com distribuição normal (para o teste t vc pode usar p. ex. os testes de Kolmogorov-Smirnov ou Shapiro-Wilk que já são para grupos) e variâncias homogêneas (ou ao menos significativamente não-diferentes, como no teste t, quando o teste de Levine tem valor de p maior que 0,05).

No caso do teste t é fácil. Mas e no caso do ANOVA? Fica mais complicado. Existem métodos para normalidade multivariada (como o teste de Mardia, comum em programas como o AMOS, para análise fatorial confirmatória ou modelagem de equações estruturais), mas sugiro um approach mais subjetivo e "qualitativo", especialmente se não tiveres acesso ao AMOS e se você não quiser explorar a chatésima função MANOVA do SPSS. 

Primeiro, para a normalidade você vai ter que avaliar para cada grupo o grau de assimetria (skewness) e curtose (kurtosis). Valores que fogem muito do zero na assimetria ou muito abaixo ou acima de 2 na curtose em algum grupo meio que já te obrigariam a fazer o teste de Kruskal-Wallis (não-paramétrico e sem pressupostos) e comparar os resultados dos métodos. Da mesma forma, grupos com distribuição leptocúrtica ou platicúrtica também são indicações de rodar um Kruskal-Wallis. 

Interessante notar que o teste de Mardia se utiliza justamente do grau de assimetria e curtose.

O SPSS faz assimetria e curtose por grupos.

Para a homogeneidade de variâncias, confira os valores de desvio padrão e variância de cada grupo e compare. Se lhe parecer diferente, vale a pena rodar o Kruskal-Wallis também.

Se você obtiver uma convergência de significâncias para o mesmo lado tanto no ANOVA quanto no Kruskal-Wallis, isso fortifica sua evidência. Se houver divergência, saiba que o Kruskal-Wallis é mais rigoroso que o ANOVA. Por isso tudo, vejo como uma gigantesca forçação de barra o uso do ANOVA em trabalhos que não descrevem o grau de aderência aos pressupostos.

Uma boa dica se houver uma relação ordinal entre os grupos (p. ex. ordens crescentes de doses aplicadas de um fármaco), é tentar o uso do Jonckheere-Terpstra, pouco usado mas muito útil em detectar de forma robusta uma tendência significativa de crescimento entre grupos ordinalmente relacionados entre si. Você encontra-o no mesmo menu de Testes Não-Paramétricos do SPSS para 3 ou mais grupos em que você encontra o Kruskal-Wallis.

Uma última boa dica é descrever o eta-squared do ANOVA, que dá a idéia de "effect size" ou "magnitude do efeito. Só a significância diz pouco na verdade, especialmente em amostras maiores (por conta do aumento dos graus de liberdade). Então, o mais importante mesmo é saber o tamanho da diferença, que o eta-squared dá.

Abs,

Collares

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Novos horizontes para o teste de progresso

Este estudo, apresentado na AMEE 2014, mostra que as questões com casos clínicos são significativamente menos respondidas pelos estudantes quando há penalidades para respostas erradas no teste de progresso, afastando-os justamente das questões nas quais deveriam estar mais engajados. Em seguida, apresento uma proposta de reconciliação entre os aspectos metacognitivos possibilitados pela penalidade, a acurácia na mensuração e a utilidade educacional do teste de progresso.


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