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Este artigo traduzido faz parte dos meus estudos de doutorado. Ele fornece um referencial teórico importante para estudantes e professores...

sábado, 9 de abril de 2011

OVERDOSE - Memórias de um médico toxicologista - Capítulo 1

Exausto. Essa é a palavra que melhor define meu estado de espírito após treze anos atuando na área da Toxicologia Médica. Para quem não sabe, essa especialidade já é reconhecida nos Estados Unidos desde a década de 1990 e seu reconhecimento legal no Brasil está em andamento enquanto escrevo este texto. E o que faz um médico toxicologista? Atendemos casos de intoxicações diversas. Nossos principais "clientes" tradicionalmente sempre foram crianças que ingerem acidentalmente alguma substância, pessoas que tentam o suicídio ingerindo algum veneno ou grandes quantidades de medicamentos e pessoas expostas a produtos tóxicos no ambiente de trabalho.

Todavia, de alguns anos para cá, o perfil de nossa "clientela" tem mudado bastante: a incidência de casos envolvendo overdoses de cocaína, crack, ecstasy e outras drogas aumentou vertiginosamente. Esses casos, que representavam uma minoria no total de atendimentos, agora praticamente monopolizam o meu plantão. Já atendi tantas pessoas com overdose que até já perdi a conta. Mas se eu for fazer uma estimativa, considerando uma média de 3 casos por plantão ao longo da vida profissional e uma média de três plantões por semana, chego ao número assustador de 6084 casos. Nem eu acredito nessa estimativa. Mas deve estar em pelo menos uns cinco mil casos. Ultimamente tem sido cada vez mais raro ter plantões sem uma overdose sequer. Aliás, está difícil ter um plantão com apenas 3 casos de overdose. Plantões com até 15 casos de overdose já aconteceram. Se duvidar, nos últimos tempos o nosso Pronto Socorro atende mais casos de cocaína e crack do que álcool isoladamente. Com o perdão do trocadilho infame, realmente algo não está cheirando bem nessa história toda.

Minha história com a Toxicologia começou bem cedo, mesmo antes de ingressar na faculdade. No colégio, um ou outro colega levava maconha para as aulas. Alguns fumavam escondido na hora do recreio ou depois das aulas. Molecotes de 11, 12 anos iam pras bocas de fumo. Mas eu não. Eu ia pra biblioteca. É, isso mesmo. Eu ia pra biblioteca estudar. E entre os assuntos que estudava estavam as drogas. Eu queria muito entender o fascínio que elas exerciam sobre as pessoas. E de um certo modo, com toda a minha curiosidade juvenil, até sobre mim mesmo. Ainda bem que eu ia matar a curiosidade no lugar certo, não é mesmo? Considerando que a minha cidade natal, Itajaí, Santa Catarina, onde vivi até os 16 anos, é campeã nacional em incidência de HIV/AIDS e que vários colegas da época sucumbiram à doença e às drogas, posso me considerar um sobrevivente até. Segundo meu professor mentor da época da graduação, o Paulo Cesar Trevisol-Bittencourt, corajoso livre-pensador e crítico da irracionalidade farmacoterapêutica atual, eu deveria me tornar um caso para estudo por conta disso.

Meu hábito de passar as tardes na biblioteca universitária me ajudou sobremaneira a passar no vestibular para Medicina. Calouro, arranjei uma namoradinha sapeca. Ela me largou para ficar com um primo. Casou-se com ele. E eu fiquei na fossa. Tomei uns porres. Saía das baladas sozinho à pé sem avisar ninguém. Um horror. Até tirei umas notas baixas. O fundo do poço. Até o dia em que surgiu um temido obstáculo no curso: um professor de Bioquímica de origem meio russa e meio peruana que eu detestava. Pois é, hoje eu o amo e agradeço imensamente. Explico: esse professor teve a brilhante idéia de mandar a gente fazer um trabalho em grupo. O trabalho consistia em pesquisar a literatura sobre uma enfermidade chamada "Doença Jamaicana do Vômito". Apesar do nome, essa doença não tem nada a ver com Cannabis ou qualquer derivado dela. Foi bem difícil encontrar alguma coisa sobre essa doença, aliás. Fui na biblioteca central da universidade. Nada. Fui na biblioteca do centro de ciências biológicas. Nada. Fui na biblioteca do hospital universitário. Encontrei um registro de que essa doença era causada pela ingestão de uma frutinha crua chamada "ackee". Nada mais além disso, o que era insuficiente para fazer o trabalho, o qual consistia em explicar fisiopatologicamente o que era a tal "Doença Jamaicana do Vômito".

Felizmente, uma lâmpada se acendeu sobre minha cabeça: subitamente lembrara de uma portinha do hospital onde um cartaz já meio puído mostrava o slogan em letras garrafais, em meio a desenhos de cobras, aranhas e caveirinhas: "Uma informação pode salvar vidas". Era a entrada do Centro de Informações Toxicológicas de Santa Catarina. Lá eu entrei e descobri tudo o que precisava. A tal frutinha tinha uma toxina chamada hipoglicina A, a qual causa uma inibição de uma enzima presente nas mitocôndrias responsável pelo metabolismo dos lipídios. Empolgado com a nota dez que o nosso grupo recebeu pelo trabalho, inscrevi-me para um estágio nesse centro, ainda no segundo ano da faculdade. Fui aceito. Lá vivenciei meus primeiros casos de intoxicação. Em seis meses virei plantonista bolsista. Um tempo depois estava fazendo minha iniciação científica lá, estudando a epidemiologia de diversas intoxicações.

Ao final do curso eu estava tão envolvido com a Toxicologia que, mesmo sem estar formado, viviam me chamando no sistema de som do hospital, popularmente conhecido como "gralha" - apelido odiado por todas as telefonistas de hospital. Às vezes estava no Centro Obstétrico e lá vinha a "gralha": "Doutorando Carlos, favor se dirigir à Emergência". Auxiliando uma cirurgia a "gralha avisava": "Doutorando Carlos, favor se dirigir à UTI". Na Emergência eu ouvia: "Doutorando Carlos, favor se dirigir ao Ambulatório de Medicina do Trabalho". E assim por diante... Obviamente percebi que na Toxicologia havia uma lacuna a ser preenchida. Havia uma demanda por médicos toxicologistas que não seria sanada tão cedo. Na minha defesa do Trabalho de Conclusão de Curso, um estudo epidemiológico sobre o glifosato, aquele herbicida usado preferencialmente nas culturas de soja transgênica, o professor Trevisol-Bittencourt declarou publicamente: "A genialidade consiste em enxergar o elefante branco que nos esmaga diuturnamente sem que as pessoas percebam" - o que me deixou muito honrado - e, confesso, um pouco constrangido também. Um colega seu, também neurologista, disse numa jornada acadêmica que apesar de ser apenas um estudante de graduação, este que agora lhes escreve já era uma das maiores autoridades em Neurotoxicologia Clínica do Brasil. Achei um exagero, mas as palavras elogiosas, mesmo que desmerecidamente no meu ver, ficaram indeléveis na minha mente - e me incentivaram para que eu procurasse me tornar exatamente isso: um neurotoxicologista - algo que oficialmente nem existe.

Enfim, pode-se dizer que sofri na pele os efeitos de uma especialização precoce, que em parte pode até ter prejudicado minha formação nas outras áreas da Medicina, mas que por outro lado, me abriu as portas para trabalhar no Centro de Controle de Intoxicações de São Paulo logo depois da formatura. A Toxicologia também abriu as portas para minhas participações em eventos de diversos países: Estados Unidos, Finlândia, Coréia do Sul, Austrália. Foi também a Toxicologia a responsável por alavancar precocemente uma feliz carreira de palestrante e professor universitário. Até minha vida romântica foi influenciada pela Toxicologia. Minha "esposa" também é médica toxicologista.

Neste livro pretendo relatar os casos mais marcantes, respeitando obviamente o sigilo profissional. Para isso, usarei algumas licenças poéticas, trocando nomes, omitindo certos detalhes e alterando certos enredos, até mesmo condensando os "personagens". Tudo para que ninguém seja identificado. Dentre os casos de overdose e tentativa de suicídio que vou contar, há gente de todas as idades e todas as classes sociais - desde morador de rua, passando por ator de novela até colegas médicos. Quando eu acho que já vi de tudo e que nada mais vai me espantar, vem um caso surpreendente que desafia minha compreensão e que poderá chocar o leitor mais desavisado. Ou pelo menos deixá-lo incrédulo.

Aos dezenove anos de idade, entrei por aquela porta do Centro de Informações Toxicológicas para fazer um simples trabalho de Bioquímica. Acabou que a Toxicologia nunca mais sairia da minha vida.






(CONTINUA QUANDO EU ESTIVER INSPIRADO A ESCREVER MAIS OU QUANDO UM EDITOR SE DISPUSER A ME PAGAR UM ADIANTAMENTO, O QUE VIER PRIMEIRO. BEIJOS A TODOS)
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