domingo, 9 de janeiro de 2011

Quanto tempo devo esperar para dirigir depois de beber?

Depois de ouvir essa pergunta inúmeras vezes, resolvi publicar este texto no blog.

O álcool etílico é "metabolizado", "quebrado", pelo fígado em uma taxa de depuração constante até que um nível sérico relativamente baixo seja alcançado, no qual a eliminação continua, mas a uma velocidade "teto" máxima. Isso faz com que a concentração plasmática cresça facilmente, devido à saturação das enzimas que o transformam em acetaldeído e, posteriormente, em ácido acético. Por isso, ao contrário da cinética de primeira ordem, o valor da meia-vida não é constante, dependendo da concentração. Portanto, quanto maior a dose, maior será a concentração; e conseqüentemente, maior será o tempo de meia vida.
Esse tipo de cinética é chamada de cinética de Michaelis-Menten, para a qual é calculada uma constante. O valor da constante de Michaelis-Menten (Km) é igual à concentração na qual metade da velocidade máxima é atingida. Este valor é de 11 mg/dL no álcool etílico em média. A velocidade máxima de biotransformação é de 23mg/dL/h em média, mas há uma grande variabilidade entre os indivíduos, podendo variar de 8 a 40 mg/dL/h, aumentando conforme o grau de consumo, sendo máximo nos dependentes crônicos graves. Como a concentração na qual começa a ocorrer saturação enzimática é extremamente baixa no caso do etanol, é comum encontrar referências denominando a cinética dessa substância como sendo de ordem zero, o que acaba sendo indistinguível na prática, apesar de existir de fato uma distinção.
Além disso, deve-se frisar que parte do álcool é eliminada na urina sem biotransformação. A relação entre a concentração de álcool na urina/sangue é de 1,44 em média, geralmente variando entre 1,10 e 2,44. A média dos volumes de distribuição (em L/kg) do etanol é de 0,70 nos homens e 0,60 nas mulheres, mas esse valor pode variar de 0,46 a 0,90. Essa variação está diretamente relacionada à quantidade de água corporal. O coeficiente de partição óleo/água é de 0,018. O pico plasmático do álcool etílico é de 45 minutos em média, variando geralmente entre 30 e 90 minutos. A biodisponibilidade oral do etanol é afetada por diversos fatores, como: 1) a presença de alimentos no estômago; 2) o grau de indução enzimática nos etilistas crônicos, aumentando a eliminação pré-sistêmica (“metabolismo de primeira passagem”); 3) o sexo (mulheres tem menor atividade da álcool desidrogenase na comparação com homens); 4) idade (aumenta conforme a idade) e 5) interações medicamentosas (aumentam ou diminuem).
Utilizando uma equação simplória (tão simplória que confesso ser indadequada, pois segue a cinética de primeira ordem) e valores médios para o estabelecimento de uma estimativa grosseira para a concentração máxima (pico plasmático) de etanol numa suposta ingestão de 1 litro de uma bebida destilada qualquer a 50°GL numa paciente de 60kg, teremos:

Dose: 394,5g

F (biodisponibilidade) = 0,8

Vd = 0,7 L/Kg

Cp = Dose x F / Vd =

394,5g x 0,8
______________ = 7,51g/L ou 751mg/dL

0,7L/Kg x 60Kg

Desprezando a excreção urinária, mas supondo uma capacidade enzimática elevada, típica do etilista crônico (23mg/dL/h), teríamos 18h para zerar a alcoolemia nesse caso. Mantendo o mesmo cenário mas supondo uma capacidade enzimática média de depurar 23mg/dL/h, teríamos 32 horas para zerar o exame.
Considerando as inúmeras variáveis que afetam a cinética do etanol, deve-se encarar como contraproducente o estabelecimento de um tempo máximo para realização dos exames de alcoolemia em 6, 8, 12, 24 horas ou mais, da mesma forma que é tampouco aconselhável a designação de um tempo seguro para assumir a direção de veículos após libações etílicas.
Ou seja, não há qualquer possibilidade de respostas fáceis para essa pergunta, infelizmente.

Um comentário:

  1. Entendi tudo ! Rsss... ou seja para cada litro de whisky 32hs de bar rsss abracos . Otimo blog!
    Ricardo

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