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Autoeficácia nas palavras do próprio Albert Bandura

Este artigo traduzido faz parte dos meus estudos de doutorado. Ele fornece um referencial teórico importante para estudantes e professores...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"O Cortiço" e o tiro no pé: o caso das indústrias de agrotóxicos e seus esforços de marketing

Há algum tempo eu havia postado uma reportagem sobre agrotóxicos adulterados pela Milenia e a ação conjunta da Polícia Federal e da ANVISA.

Agora, depois de muito tempo do ocorrido, resolvi reproduzir nos links abaixo duas notícias encontradas no site da ANVISA, sobre irregularidades envolvendo a Syngenta - clique aqui - e a Bayer - clique aqui. Faço isso não apenas para ajudar a disseminar essa informação sobre certas práticas de alguns integrantes da indústria de agrotóxicos, mas também para compartilhar uma reflexão com vocês leitores.

É importante ressaltar que o setor produtor de agrotóxicos denomina seus produtos "defensivos agrícolas", na tentativa de tirar do nome desses produtos qualquer vestígio do seu potencial nocivo, apesar da legislação vigente que define claramente tais substâncias como agrotóxicos.

Ironicamente, logo após 1 milhão de quilos de agrotóxicos da Syngenta apreendidos pela ANVISA, a Revista Época oferece um prêmio ambiental para a mesma Syngenta...
Essa situação sui generis me fez lembrar daquele livro do Aluísio Azevedo, "O Cortiço", clássico escolar, em que, apesar do viés demasiadamente determinista-naturalista (e quiçá racista), ilustra de forma magistral a dissociação, o desacoplamento entre a prática pública e particular.

(SPOILER ALERT, não leia este parágrafo se não quiser estragar sua leitura do livro)

Em situação perfeitamente análoga a de certas empresas cujos esforços de relações públicas pretendem exaltar sua suposta responsabilidade socioambiental, o personagem central de "O Cortiço", João Romão, é homenageado como abolicionista benemérito logo após a escrava Bertoleza cometer o suicídio ao descobrir que sua carta de alforria era um engodo.

(FIM DO SPOILER ALERT. Você que incrivelmente passou pela escola incólume, sem ler "O Cortiço", pode retomar sua leitura a partir daqui)

Essa prática tem até nome em inglês ("decoupling" ou desacoplamento) e é definida em ciência organizacional, particularmente nos estudos de "nova teoria institucional", como "a criação e a manutenção de disparidades entre as políticas formais e as reais práticas organizacionais"(MEYER e ROWAN, 1977).

É como se funcionasse nas corporações a famosa "formação reativa" - o mecanismo de defesa do ego associado a inversão de comportamentos e sentimentos, de forma diametralmente oposta ao desejo real.

Pelo que temos visto de práticas corporativas inaceitáveis, é possível que, por psicologia reversa involuntária, a sociedade - que não é tão ingênua - perceba que essas iniciativas de marketing que procuram vender a imagem das empresas como cidadãs e éticas, podem ser, na verdade, uma mera estratégia de obtenção de legitimidade social.

Curioso notar que o caso da Syngenta chega às raiais do tragicômico: até Circuito de Viola eles estão patrocinando, com o beneplácito do Ministério da Cultura. Tem maior chancela oficial de que eles são "mocinhos"? Deve ter sido um êxtase para a empresa e responsáveis pela sua imagem corporativa.

Mais ingenuidade do que achar que as empresas são boazinhas e estão mais preocupadas com a saúde e o ambiente do que com seus lucros, só mesmo acreditar que o Estado é um paizão super legal e que todos os artigos científicos são livres de cooptação...

Não duvido que existam iniciativas verdadeiras de responsabilidade socioambiental; todavia, como é difícil verificar se a ética permeia todas as práticas corporativas e não apenas essas iniciativas que considero como "fachada", é possível que muitas pessoas se percam no fluxo de informação e acabem comprando a falsa imagem de "beneméritas" que essas empresas querem nos vender.

Como educador é meu dever acreditar no potencial de evolução de todos... Então quem sabe, aos poucos, a Syngenta, a Bayer e a Milenia não aprendem a fazer as coisas certas?

Só espero que nossa população com tão poucas oportunidades educacionais não acabe como a pobre Bertoleza - eviscerada por si mesma para não perder a liberdade, mas que bem lá no fundo, se colocou nessa situação fatal ao se deixar enganar pela conversa fiada do galã explorador sem escrúpulos que resolveu repentinamente virar "nobre".

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Caso os links saiam do ar, os textos estão abaixo:

Brasília, 28 de setembro de 2009 - 9h25
Fiscalização apreende agrotóxicos adulterados na Bayer

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária interditou, na última sexta-feira (24), 1 milhão de litros de agrotóxicos adulterados, em Belford Roxo (RJ). A fiscalização, realizada pela Agência com apoio da Polícia Federal, ao longo de toda semana passada na empresa Bayer, de origem alemã, identificou a produção de agrotóxicos com formulação adulterada, sem autorização dos órgãos competentes.
No total foram encontradas irregularidades em 12 agrotóxicos. O caso mais grave, identificado pela Agência, foi a importação do ingrediente ativo do agrotóxico Procloraz e a produção do agrotóxico comercial Sportak 450 EC, sem controle obrigatório de impurezas toxicologicamente relevantes. A falta desse controle pode causar câncer nos trabalhadores expostos ao agrotóxico e na população que ingere alimentos contaminados com tais produtos.

A interdição é valida por 90 dias, prazo em que os produtos não poderão ser produzidos nem comercializados. Caso sejam comprovadas as irregularidades, a empresa poderá pagar multa de até R$ 1,5 milhão por irregularidade.

No começo do ano, a Bayer, segunda maior empresa no segmento de agrotóxicos em todo mundo em 2008, teve o registro do agrotóxico Evidence (imidacloprido) cancelado. O produto, usado nas culturas de cana de açúcar e fumo, era produzido com adulteração na fórmula.

Adulteração

Agrotóxicos são produtos com alto risco para saúde e meio ambiente e, por isso, sofrem restrito controle de três órgãos de governo: Anvisa, IBAMA e Ministério da Agricultura. Alterações na fórmula desses produtos aumentam significativamente as chances do desenvolvimento de diversos agravos à saúde como câncer, toxicidade reprodutiva e desregulação endócrina em trabalhadores rurais e consumidores de produtos contaminados.

Só este ano, a Anvisa já apreendeu, 4,5 milhões de litros de agrotóxicos adulterados. As fiscalizações ocorrem, principalmente, quando são identificados indícios de irregularidades nos produtos acabados.

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Brasília, 5 de outubro de 2009 - 9h50
Fiscalização apreende 1 milhão de quilos de agrotóxicos na Syngenta

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interditou cerca de 1 milhão de quilos de agrotóxicos com irregularidades e adulterações, na fábrica da empresa Syngenta, de origem suíça, em Paulínia (SP). Os problemas foram encontrados após fiscalização da Agência, realizada na última semana.

Após três dias nas instalações da maior empresa em vendas de agrotóxicos no Brasil e no mundo no ano de 2008, a equipe da Anvisa encontrou várias irregularidades na importação, produção e comércio de produtos agrotóxicos. A ação contou com apoio da Polícia Federal.

Do total de produtos interditados, 600 mil kg correspondiam a agrotóxicos e componentes com datas de fabricação e de validade adulteradas. Esses produtos não poderão ser utilizados ou comercializados até que se restituam as datas verdadeiras de produção e de validade.

A empresa também foi autuada por destruição total das etiquetas de identificação de lote, data de fabricação e de validade do agrotóxico Flumetralin Técnico Syngenta, igualmente interditado. Vários lotes do mesmo produto também foram interditados por apresentarem certificado de controle de impurezas sem assinatura, data da sua realização ou com data de realização anterior à produção do lote analisado.

O controle de impurezas toxicologicamente relevante no Flumetralin Técnico é obrigatório uma vez que tais impurezas são reconhecidamente carcinogênicas e capazes de provocar desregulação hormonal. Também foram interditados todos os lotes do produto PrimePlus, formulados com os lotes interditados do Flumetralin Técnico.

Outro produto técnico interditado com o certificado de análise insatisfatório (sem assinatura e sem a quantidade real de ingrediente ativo) foi o Score Técnico. Já o agrotóxico Verdadeiro 600 teve as embalagens interditadas por confundir o agricultor quanto ao perigo do produto. Apesar de ser da classe toxicológica mais restritiva, as cores dos rótulos do referido agrotóxico induziam o agricultor a concluir que o produto poderia ser pouco tóxico.

A Syngenta também foi autuada por venda irregular do agrotóxico Acarmate (Cihexatina). A fiscalização da Anvisa identificou que o produto, com venda restrita ao estado de São Paulo, era comercializado para outros estados.

A empresa foi notificada, ainda, a efetuar alterações no sistema informatizado que possui de modo que seja possível controlar efetivamente, lote a lote, a quantidade dos componentes utilizados nos Produtos Formulados. Dentro de 30 dias, a empresa está sujeita a nova fiscalização para verificação do cumprimento das condições estabelecidas na notificação.

As infrações encontradas podem ser penalizadas com a aplicação de multas de até R$1,5 milhão e com o cancelamento dos informes de avaliação toxicológica dos agrotóxicos em que foram identificadas tais irregularidades. Em caso de possibilidade de outras infrações além das administrativas, a Anvisa encaminha representação à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal para possível investigação criminal.

Adulteração

Agrotóxicos são produtos com alto risco para saúde e meio ambiente e, por isso, sofrem restrito controle de três órgãos de governo: Anvisa, IBAMA e Ministério da Agricultura. Alterações na fórmula desses produtos aumentam significativamente as chances do desenvolvimento de diversos agravos à saúde como câncer, toxicidade reprodutiva e desregulação endócrina em trabalhadores rurais e consumidores de produtos contaminados.

Só este ano, a Anvisa já apreendeu, 5,5 milhões de litros de agrotóxicos adulterados. As fiscalizações ocorrem, principalmente, quando são identificados indícios de irregularidades nos produtos acabados.
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