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Este artigo traduzido faz parte dos meus estudos de doutorado. Ele fornece um referencial teórico importante para estudantes e professores...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Suceptibilidade genética e ética médica

Considera-se que o enlace da informação sobre a variabilidade genética com as informações sobre fatores ambientais, nutricionais, comportamentais, metabólicos, médicos, e de cuidados à saúde será progressivamente necessário para prevenir e tratar as doenças, com repercussões em saúde coletiva (VAN OMMEN, 2001). As teorias evolucionárias tendem a concordar que a seleção natural está condicionada às interações gene-ambiente. Já que a contaminação progressiva do ambiente está revelando sucetibilidades individuais como os polimorfismos genéticos e o predatismo social, pode-se dizer, extrapolando o conceito original de Ayres (1984), que os agentes químicos estão provocando um novo tipo de evolução, o “Darwinismo químico”.

A genética em saúde coletiva é uma área interdisciplinar emocionante que congrega todas as ciências da saúde para enfrentar o desafio emergente de interpretar o significado da variabilidade genética dentro das populações (VAN OMMEN, 2000). Cada vez mais, a informação genética traz a promessa da prevenção, da detecção precoce, e da melhoria no tratamento para o câncer e outras doenças geneticamente relacionadas (FRANK, 2001).

Embora as buscas da Ecogenética consistam em examinar diferenças geneticamente mediadas na suscetibilidade aos agentes ambientais, os pesquisadores freqüentemente examinam a relação entre marcadores genéticos e doença, sem consideração aos determinantes ambientais (KHOURY et al., 1988).

Um exemplo no qual essa negligência inapropriadamente dicotomizatória ocorre comumente é o estudo da caracterização genética de traços comportamentais característico da Sociobiologia. Na década de 1950, etólogos estudaram o que pareceram ser comportamentos coletivos evolutivos. Eles formularam a hipótese de que a seleção poderia operar-se em nível de grupo. As primeiras interpretações sociobiológicas da cultura como um processo derivado de processos genéticos foram seguidas por outras idéias em que a cultura, canalizada por predisposições evolutivas, estava essencialmente livre do determinismo biológico (CROGNIER, 2000).

As tentativas dos sociobiólogos de demonstrar o determinismo genético de traços psicológicos em estudos com gêmeos monozigóticos até o momento têm falhado, devido ao alto grau de discrepância na expressão de várias doenças entre os indivíduos estudados. Apesar da inquestionável validade em se estudar os fatores genéticos das doenças mentais, tais estudos podem revelar um uso ideológico perigoso da ciência, a qual poderia ser utilizada como uma ferramenta para a opressão social (PERRY, 1980; SOCIOBIOLOGY STUDY GROUP, 1976).

Por outro lado, novos conhecimentos sobre os mecanismos controladores da expressão gênica desafiam os conceitos tradicionais de toxicogenética. A discordância em gêmeos monozigóticos na expressão de várias doenças gerou a busca de explicações além das já consagradas, gerando estudos em Epigenética. A Epigenética estuda as modificações na expressão gênica controladas por mudanças não nos genes em si, mas em outros processos. Exemplos desses processos são a metilação e demetilação do DNA e a acetilação e deacetilação de histonas, alterando a própria estrutura da cromatina. Esses fenômenos são herdados, porém reversíveis; sendo também responsáveis pela identificação do DNA como self (PETRONIS, 2001).

Atualmente, trabalhadores e outras pessoas são expostas constantemente à substâncias carcinogênicas, geralmente sem seu conhecimento, e sem seu consentimento livre e esclarecido. Há um inegável risco do emprego incorreto da informação genética por empregadores, por companhias de seguro e outros.

Ao invés de provocar um investimento nos esforços para a restrição do uso de produtos tóxicos e para a criação e manutenção de ambientes de trabalho com baixo risco tóxico, as suscetibilidades genéticas têm se revelado como um meio de colocar em voga novamente a mentalidade de que “a culpa é da vítima” ("blame the victim ideology").

Para Frank (2001), a possibilidade da Toxicogenética dar margem a um uso errôneo dessa tecnologia, com objetivo de culpabilizar os pacientes por suas suscetibilidades individuais na biotransformação de xenobióticos, é algo que merece maior reflexão da comunidade científica no sentido de promover uma utilização ética e responsável. A criação de marcos regulatórios na legislação brasileira nesse sentido é uma discussão que está bastante atrasada.
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