Postagem em destaque

Autoeficácia nas palavras do próprio Albert Bandura

Este artigo traduzido faz parte dos meus estudos de doutorado. Ele fornece um referencial teórico importante para estudantes e professores...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pacientes intoxicados ou em franco delírio psiquiátrico? Algumas considerações pessoais...

Atribuir às pessoas enfermas a culpa por sua condição é um hábito comum de autoridades humanas e de alegadas autoridades divinas. Infelizmente, ao se revelarem os mecanismos do controle emocional, até pouco tempo totalmente incógnitos, é possível que tais descobertas sejam utilizadas contra os indivíduos doentes a quem deveriam beneficiar. Por outro lado, uma revolução no modelo médico vigente poderia ser desencadeada. Na mesma medida em que mudanças profundas no modo de vida trazem a perspectiva de melhor qualidade de vida, elas são igualmente necessárias para cortar os crescentes custos da saúde coletiva, o principal objetivo na ideologia da "medicina financeira" (LEFF, 2001).

A insatisfação crescente com a medicina convencional é decorrente da insatisfação com a própria vida moderna. Esse fenômeno tem se traduzido na busca por várias terapias "alternativas", muitas vezes praticadas por leigos, que em alguns casos têm o objetivo de iludir pessoas enfermas. Tais práticas podem causar muito mais do que prejuízos financeiros; podem também causar danos físicos e psicológicos sérios - muitas vezes, irreversíveis. No caso de pacientes expostos a agentes químicos, a disseminação de informações sobre Toxicologia entre os médicos parece ser o único antídoto.

Concorda-se que mais pesquisas científicas de qualidade precisam ser feitas para testar as hipóteses fisiopatológicas suscitadas de causalidades tóxicas e psiquiátricas. Porém, a comprovação de qualquer hipótese não deve excluir as demais, já que a eventual explicação pode envolver a integração de diversos modelos (SULLIVAN Jr. et al., 2001).

Contudo, no momento em que correntes científicas diametralmente antagônicas durante décadas parecem iniciar um período de síntese, cabe aqui uma reflexão sobre o próprio método da argumentação científica. Sabe-se que a metodologia da argumentação e uma perspectiva de incredulidade e ceticismo são ingredientes essenciais de qualquer jornada intelectual, incluindo aquelas relacionadas com a arte e a ciência do cuidado médico. Uma abordagem científica sistemática baseada na verificação da validade de crenças, opiniões, percepções, dados e conhecimentos deve ser praticada e perpetuada. Tal abordagem deve ser valorizada justamente pelo fato de ser potencialmente incompleta, incorreta e mal-interpretada (RODNING, 1992).

Nesse contexto, deve-se ressaltar que a contestação da etiologia das intoxicações ocupacionais e ambientais distrai os pacientes dos objetivos terapêuticos e os empregadores dos objetivos preventivos, e que os cuidados psiquiátricos devem complementar os demais cuidados clínicos, ao invés de excluí-los (ESCOBAR et al., 2002; ENGEL Jr. et al., 2002). Atualmente, considera-se que a distinção entre transtornos "mentais" e "orgânicos" pode ser considerada uma prática anti-ética
(WRIGHT et al., 1998; CACIOPPO et al., 2000).

Parece ser possível dispensar sentimentos iconoclastas ao se prever que muitos dos expostos a agentes químicos e que foram diagnosticados como portadores de "histeria" ou "transtorno conversivo", ou ainda "transtorno delirante" e "parafrenia", serão brevemente considerados pessoas "realmente doentes", o que infelizmente ainda não são para parcela considerável dos profissionais médicos. Portanto, é possível se imaginar que simultaneamente sejam extintas as abordagens médicas inadequadas ainda hoje praticadas, que ignoram o impacto da enfermidade e, infelizmente, acabam por perpetuar situações de aniquilamento social.

Quando os pacientes que lhe solicitarem ajuda relatarem sua inglória peregrinação por vários consultórios médicos, irritados por terem sido considerados indivíduos “histéricos” ou "esquizofrênicos" e, frustrados por não terem suas limitações e sofrimentos resolvidos, lembre-se sempre, antes de efetuar um juízo de valor, das palavras de Micale (1995): “a história da histeria ilumina a história das idéias; em outras palavras, é a história de como entendemos a nossa própria mente”.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...