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Autoeficácia nas palavras do próprio Albert Bandura

Este artigo traduzido faz parte dos meus estudos de doutorado. Ele fornece um referencial teórico importante para estudantes e professores...

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Um sincero pedido

Oi, pessoal, como vocês devem ter notado, faz algum tempo que não tenho postado nada novo no blog. A minha agenda profissional está cada vez mais lotada e isso tem me impedido de dar atenção ao blog. Depois de alguns meses vi a lista de comentários nao respondidos e quase caí para trás. Os pedidos de ajuda se multiplicaram e eu me vejo em uma situação bastante constrangedora por não ter podido atendê-los. Gostaria muito de poder ajudar a todos os meus leitores individualmente mas infelizmente isso não será mais possível. Peço sinceramente desculpas a todos. Conto com a compreensão de vocês.

Atenciosamente,

Carlos

P.S.: um bom grupo para tirar dúvidas em estatística e metodologia (em inglês), é o "Research, Methodology, and Statistics in the Social Sciences", no LinkedIn. Esse grupo é do meu colega de departamento Jimmie Leppink, e todos são bem-vindos!

domingo, 21 de fevereiro de 2016

SUS, HERÓI OU VILÃO?

Durante o curso de Medicina os estudantes são preconizados, diria até condicionados a idolatrar um Deus, o Deus SUS. Não se pode criticá-lo. Criticar o SUS é uma heresia. Pode até custar ao aluno alguma reprovação.

É irônico, tragicômico até, constatar que apesar da gradual degradação da qualidade dos atendimentos ao longo das décadas de funcionamento do SUS, da precarização das condições de trabalho e dos calotes frequentes nos salários dos profissionais que no SUS atuam, o pensamento hegemônico em prol do SUS continue sendo tão robusto e o número de médicos discordantes do SUS, tão baixo. As novas diretrizes curriculares dos cursos de Medicina são totalmente direcionadas para enaltecer as supostas qualidades do SUS. Os alunos são treinados para enaltecer e prestigiar aquilo que, em última análise, tem sido a causa de sua própria ruína, depois que se formam.

O SUS é um gigantesco mastodonte, indiretamente imposto pela Constituição, que, na maior parte dos casos, pisa com força e acaba por esmagar os profissionais que nele atuam e a população que supostamente deveria ser ajudada. Mas, infelizmente, o mastodonte Deus SUS parece ser dotado de invisibilidade para a maior parte das pessoas que está pisotear e sufocar.

Quando falta dipirona, penicilina, soro, leito, vaga em UTI e profissionais de saúde são poucos os que ousam apontar o SUS como a causa do problema. Quando pessoas morrem na fila de espera para um atendimento de urgência, para uma cirurgia oncológica ou para um transplante, são poucos os que conseguem enxergar o SUS como culpado. Quando diversos hospitais fecham em sequência, poucos têm coragem de acusar o SUS. Eu acuso o SUS não apenas como um suspeito, mas como o grande vilão.




O SUS como é hoje tem que acabar. Consigo até imaginar o forte grau de comoção que certos leitores sentiram ao ler essa frase. O SUS um modelo anacrônico, utópico, irracional, insustentável e muito, mas muito opressor.

O Deus SUS oprime os profissionais da saúde, os quais acabam servindo - conscientemente ou não - de massa de manobra por políticos eleitoreiros. Mas as principais vítimas do Deus SUS são principalmente a população que sofre com a superlotação, com macas em corredores e com a dificuldade de acesso à procedimentos diagnósticos e terapêuticos verdadeiramente resolutivos.
Universalidade e integralidade são princípios do SUS muito bonitos na teoria, mas na prática, a teoria é outra. No fundo, bem lá no fundo, imagino todos saibam qual é a raiz dos problemas embora não queiram enfrentar a dura realidade de que ao invés de dar dignidade aos profissionais e à população, o SUS acabou por fazer o contrário do que fora almejado e prometido: escravizou profissionais e pacientes a conviverem com as situações mais indignas possíveis.

Antes de defender o SUS com unhas e dentes (ou antes de começar a me atacar pessoalmente), pense em todas as vítimas que padeceram por causa do SUS. Pense no bebê que morreu por falta de máscara respiratória. Pense na pessoa com câncer que morreu sem diagnóstico ou tratamento. Pense no médico que teve que escolher qual paciente precisou salvar por falta de equipamentos. Pense no enfermeiro agredido por um familiar de paciente irritado com a demora no atendimento. Pense no diretor clínico que é pressionado a dar alta para pacientes ainda em risco de óbito apenas para dar lugar aos pacientes que estão chegando.

É claro que há um contraponto que temos que reconhecer: há histórias bonitas de sucesso no SUS? Há sim. Mas essas são as raras exceções que só fazem confirmar a regra. De modo geral, o que se vê é desgraça, tragédia, enganação e politicagem.

Que fique claro: não é contra você, trabalhador do SUS, que estou escrevendo essa mensagem. É em seu favor, por mais difícil que seja compreender.

Há muitos profissionais no SUS extremamente dedicados e competentes que "fazem das tripas coração", dando o melhor de si apesar dos pesares, e que ainda não se deixaram contaminar pelo cinismo, pela burocracia e pela desesperadora falta de condições de trabalho. Sim, eles existem e até acredito que ainda sejam a maioria. Quero acreditar que eu era um médico desse tipo nos 9 anos em que trabalhei no SUS. Período este que só acabou quando finalmente percebi que ao dar o melhor de mim nos atendimentos estava apenas contribuindo para esse calamitoso estado das coisas. Não aguentei mais viver uma situação na qual os políticos faturavam votos nas minhas costas sem o menor merecimento enquanto eu tinha que fazer malabarismos para evitar que pessoas de idade avançada precisassem ser atendidas no chão por falta de leitos. Trabalhadores e pacientes eram os perdedores da história e os únicos vencedores ao final eram os políticos.

Sei que ser contra o SUS é algo extremamente impopular. Sei que manifestar essa opinião abertamente poderá me causar problemas, represálias e mesmo fechar portas profissionais. Serei mal visto e mal interpretado. Podem me julgar. Podem me tornar um pária. Podem me impingir um estigma indelével. Podem pedir minha cabeça. Não me importo. Especialmente se meus críticos forem de alguma torre de marfim dos departamentos de Saúde Pública e Saúde Coletiva das universidades públicas. São esses os ideólogos do genocídio implícito, sutil, e que dificilmente será reconhecido, mas que inegavelmente foi perpetrado pelo SUS, por mais que apresentem estatísticas mirabolantes para provar o contrário.

Minha consciência está limpa, cristalina. Será que nesses ideólogos do SUS ainda resta uma consciência, uma bússola moral, para refletir sobre os resultados reais de suas ideias e ações? Espero que sim. Espero que não estejamos lidando com monstros morais.

É possível ter um sistema de saúde melhor, mais justo e mais eficiente e que ainda por cima custe menos? É possível. Outros países estão cheios de exemplos bem sucedidos. Mas para que uma mudança positiva ocorra é necessária uma transformação não apenas do sistema de saúde, e talvez também da educação médica, mas da consciência da pessoas em reconhecer, ainda que muito tardiamente, que o SUS é um experimento que não deu nem nunca dará certo e que um outro tipo de modelo de assistência, moderno e eficaz, deve urgentemente ser buscado. Não se trata de ideologia apenas, mas de pragmatismo e de ética. O povo tem pressa. Passou da hora de se consertar a assistência à saúde no Brasil. Acabar com o SUS e substituí-lo por um modelo radicalmente novo deveria ser considerado um imperativo ético.

C. F. Collares
20/02/2016

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Minha tese de doutorado, finalmente



Após um longo e difícil processo de realização, redação e correção, devido às dificuldades inerentes ao fato de estar morando em outro país, finalmente foi publicada a minha Tese de Doutorado, sobre a adaptação transcultural e a obtenção de evidências de validade de um instrumento de avaliação das escolhas profissionais de futuros médicos. Espero que essa Tese possa contribuir para a compreensão das razões que levam os estudantes de Medicina a escolherem suas metas profissionais e que forneça evidências capazes de fornecer subsídios para ações que contribuam para a melhoria da atenção à saúde no Brasil.






Esta é a capa!



O papel da autoeficácia para a realização da escolha mostrou-se preponderante. Em segundo lugar, chamou-me a atenção o paradoxo entre as expectativas de resultado profissionais e as expectativas de resultado em relação ao estilo de vida. Aparentemente, há um "trade-off", no qual os estudantes sabem que péssimas condições de trabalho lhes aguardam - eles não parecem nutrir ilusões em relação a isso; o que seria compensado pela perspectiva de um melhor estilo de vida.




Não fico triste em saber que a expectativa de resultados materiais tem impacto sobre as metas. Todo ser humano precisa de incentivos e esses incentivos passam pelo retorno material e financeiro - o que, diga-se de passagem, nunca foi tão ruim como neste momento, no qual o valor do trabalho médico nunca foi tão aviltado.




O que mais me chocou e entristeceu foram as expectativas de resultado profissionais, negativas e sem influência significativa sobre as metas. Os resultados da Tese permitem sugerir que aparentemente, as condições de trabalho péssimas são consideradas algo imutável, perene, ao qual os futuros profissionais já se habituaram como "fato da vida", contra o qual nada podem fazer. Uma lástima. Talvez resultado de muito proselitismo e pouco pragmatismo nas escolas médicas? Talvez.




Entre tantos agradecimentos indispensáveis, vale aqui o reconhecimento especial dos esforços persistentes da minha orientadora, Prof. Ana Paula Noronha, dos meus pais, da minha esposa, e dos alunos do curso de graduação em Medicina da UNICID, entre tantas outras pessoas que, de uma forma ou de outra, deram sua contribuição nessa jornada.


Fica aqui o registro do meu amor e da minha gratidão a todos vocês. Confesso que já sinto uma certa saudade da Universidade São Francisco. e do corpo docente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia.


Com a finalização do doutorado e a vida de professor em outro país, incluindo a necessidade de ter que aprender outra língua, foi bem difícil atualizar este blog como eu desejava nos últimos três anos. E talvez continue a sê-lo. Não sei se voltarei a escrever na mesma frequência de antes.


Várias vezes pensei em fechar o blog por não poder mais atualizá-lo como gostaria. Todavia, quando vejo que ele está perto de fazer 250.000 visitas, e que ele é visitado por pessoas de muitos países onde o acesso a esse tipo de informação não é tão fácil, percebo que devo mantê-lo no ar. Tenho respondido algumas perguntas pelos comentários aqui no blog sempre que possível, não sem alguma demora, é verdade, mas espero contar com a compreensão de vocês. Foi por uma boa causa. Escrevam nos comentários algum tema que vocês gostariam que eu escrevesse pra vocês.






O arquivo com a Tese e todos os devidos agradecimentos pode ser obtido no link abaixo.






http://www.usf.edu.br/galeria/getImage/427/6721999546973975.pdf






Um abraço,






CFC





sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Em homenagem aos 25 anos da queda do Muro de Berlim, histórias da Tia Adelle


Uma das coisas que marcou muito a minha infância foi a visita de uma tia distante da Alemanha Oriental, a tia Adelle Rost. Como eu era muito pequeno na época para poder contar essa história corretamente hoje, em homenagem aos 25 anos de queda do Muro de Berlim, pedi pra minha mãe, Maria Beatriz Kumm Collares, contar com mais detalhes como foi essa visita. Tia Adelle foi um testemunho vivo para nós do que era o socialismo real antes do Muro cair. Este é o relato que a minha mãe me enviou:

"Toda família tinha expectativa pela chegada da Tia Adelle. Para poder sair da Cortina de Ferro imposta à Alemanha Oriental pela União Soviética, Tia Adelle teve muito trabalho. Foram necessárias muitas comprovações e extensos laudos médicos para que os comunistas finalmente dessem permissão para que a tia viesse ao Brasil - precisou provar que tinha um familiar que estava para morrer. É claro que isso só foi possível após a apresentação das passagens compradas com o dinheiro dos familiares. Seu primo Nelsinho foi buscá-la no "Checkpoint Charlie".

Ela era de Joinville, como sua avó Helga, e seu marido era alemão. Eles casaram, deixaram Joinville, e foram morar na Alemanha. Vó Helga me contou que ele tinha uma úlcera grave mas mesmo assim ele foi convocado a fazer consertos nos fios de telégrafo e de luz. Durante um bombardeio,não resistiu e faleceu. Quando os soviéticos, na sua suposta ação pela liberdade da Alemanha, tomaram o controle do governo e implementaram o socialismo, deram-lhe a possibilidade de voltar para o Brasil, mas sem a filha, que tinha nascido lá. É claro que ela optou por ficar com a filha e então teve que viver lá mesmo, afastada de toda a família no Brasil.

Minha convivência com ela foi breve mas muito marcante e inesquecível. Ela chegou em nossa casa em um final de tarde junto com a Oma do seu pai e a sua avó Helga. Ela era alta, sorridente, bochechas rosadas, e as pernas arqueadas pelo trabalho intenso no campo. Plantava pêssegos e maçãs, e olhava tudo com uma curiosidade infantil. Era notável a imensa alegria da Tia Adelle por finalmente poder conhecer uma parte da família, apesar de trazer no olhar a dor de uma separação de décadas. Na mão ela trazia embrulhado em um pedaço de papel um lenço branco com as bordas de renda, um presente que recebi com muito carinho.

Quando chegou, sentou ao lado da Oma, mas logo em seguida, levantou, caminhou até a parede que dá para a casa do vizinho, encostou a orelha na parede e ficou assim alguns segundos, diante dos nossos olhares perplexos. Em seguida, veio a justificativa:

- Será que tem algum espião tentando escutar a nossa conversa?

- Não, tia, aqui não tem espiões.

Ela respondeu em seu português quase perfeito, treinado todos os dias diante do espelho durante trinta e seis anos de prisão socialista para que não esquecesse suas raízes brasileiras:

- Vai saber, eles estão em todos os lugares! Às vezes os filhos são espiões e os pais não sabem. Os espiões chegam a fazer refeições conosco! Tudo pra ter certeza que não estávamos sofrendo nenhuma influência do ocidente imperialista!

Tia Adelle ficou no Brasil todos os dias que lhe concederam, mas na hora de voltar, pois ela não podia deixar seus netos e filha para trás, os comunistas não queriam que voltasse. Ela era velha para o trabalho, e por isso queriam descartá-la e assim ficar com as terras que sempre tinham sido de propriedade dela e cujo direito de uso havida sido "concedido" pelo governo comunista. A filha dela dependia das terras.

Ela voltou, mas faleceu alguns meses depois. Soube que ela manteve muito bem escondido os documentos de propriedade das terras que cultivava e assim, a filha e netos depois puderam comprovar que eram os legítimos donos.

Volta e meia a Vó Helga e a Oma recebiam cartas dela e é claro que todas chegavam abertas, violadas.

No Brasil ela também comeu carne bovina que a décadas não sentia mais o sabor, viu revistas de costura da vó Helga, as revistas Burda, às quais nunca tinha tido acesso pois estimulavam o consumismo maligno do Ocidente. Ela falou que ficava muito tempo esperando um pedaço de tecido, e outras coisas básicas. Então eu fui na antiga Loja Giorama, e comprei para ela vários tecidos coloridos, inclusive com motivos brasileiros, como palmeiras, papagaios e praias.

Ela falou como era viver com medo, como era difícil saber que os amigos ficaram do outro lado, falou da alegria de estar aqui, da dor de voltar, mas que nunca poderia ficar longe da família que havia deixado na Alemanha. Ah, mano, e ela também falou que os dirigentes volta e meia decidiam que profissão os jovens deveriam seguir e onde deviam trabalhar e morar... Davam pouco e cobravam muito em troca. Depois eu conto mais histórias da Tia Adelle... Beijo, mano... te amo!"

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

FASCISMO DE DIREITA X FASCISMO DE ESQUERDA



Uma boa metáfora do que está acontecendo no Brasil neste período pós-eleitoral pode ser encontrado no experimento psicológico-educacional realizado em crianças na década de 1970, pela Professora Jane Elliot, tendo como base um discurso de ódio artificialmente criado, o qual tinha como base a discriminação de acordo com a cor dos olhos. Nos inúmeros vídeos disponíveis na internet, é possível perceber como o discurso de ódio é facilmente assimilado e reproduzido.
Este experimento mostra de forma bem clara que o ato de generalizar as pessoas em grupos sociais criados arbitrariamente é o solo no qual as idéias fascistas germinam. Ao despir as pessoas de sua individualidade por meio de rótulos, abre-se o espaço para desumanizá-las - e é dessa desumanização que decorre a vilificação e a demonização das pessoas pertencentes a tais grupos. Após a devida satanização, sobram pretextos que são usados para justificar a existência dos discursos de ódio e mesmo a prática da violência extrema, que pode ser promovida ou consentida tanto por entidades estatais quanto por grupos para-estatais de apoio ou de oposição a governos. Dito isto, o Brasil deve se lembrar de três fatos fartamente divulgados pela mídia agora em risco de ser "regulada", "democratizada" e "socialmente controlada": 1) Quem colocou a culpa da crise no Brasil na "elite branca"? Lula. 2) Quem usou discurso de ódio contra a classe média? Marilena Chauí, filósofa petista, contando com o sorriso de aprovação de Lula. 3) Quem estimulou o ódio contra todos os médicos brasileiros, classificando-os como desumanos por discordarem do sistema de trabalho quase escravagista dos colegas cubanos que vieram trabalhar no Brasil sem diploma revalidado? Dilma.
Como se pode inferir, no caso de Aécio, há alguns eleitores com visões fascistas de direita - idéias com as quais ele não coaduna e quer distância. Há um recrudescimento no fascismo de direita, mas ele é rejeitado pelo candidato social democrata - insistentemente vendido como um representante à direita no espectro político pelo petismo, apesar das origens europeias da social democracia tucana posicionarem o PSDB como centro por definição. Por outro lado, é muito triste mas inevitável constatar que é parte fundamental da estratégia política do PT a promoção de uma nova forma fascismo de esquerda, que generaliza e promove o ódio contra a classe média (nem toda classe média é violenta, fascista e ignorante, como diz a sra. Chauí), contra a elite (geralmente as elites são fatores importantes para impulsionar a prosperidade de seus países e não são necessariamente más) e contra os médicos (a maioria dos médicos é humana e competente apesar das péssimas condições de trabalho e da remuneração vil).
Esta forma de fascismo de esquerda usou o mesmo tipo de discurso na Venezuela, com resultados notoriamente desastrosos. O que acontece na Venezuela, e que está acontecendo aqui e agora, neste período pós-eleitoral, é a utilização das declarações de uma pequena parte do eleitorado de oposição para que todos os descontentes sejam generalizados como portadores dessa visão tacanha de mundo, tentando envergonhá-los com o carimbo de "racistas", "nazistas" e "preconceituosos". Ou seja, estão pisando no acelerador do fascismo de esquerda ao tentar colar a imagem do fascismo de direita em Aécio, artificialmente forçando uma divisão ainda maior do país entre "nós e eles". E esta é uma sequela do processo eleitoral criticada por pessoas de todas as matizes ideológicas.
Nada mais imprudente e perigoso do que insistir no discurso divisivo. Ao omitir fatos importantes e inverter papéis, pode-se afirmar sem dúvidas que muitos petistas hoje estão, aparentemente sem perceber, bebendo do mesmo fascismo que supostamente pretendem denunciar.
Se há fascismo de direita, ele é ocasional e rechaçado politicamente pelo candidato social democrata. Já o fascismo de esquerda é onipresente, mas não escandaliza, não é alvo de denúncias por parte da oposição, e tampouco é reconhecido como tal. Todavia, temo que o atual fascismo de esquerda seja ainda mais perigoso que o de direita por ter sido abraçado como parte fundamental da estratégia política do partido no poder. Essa estratégia é lamentável e extremamente frustrante, pois vem do lado do espectro político que, ao menos em tese (ou em "marketing"), é o lado "progressista" e "do bem".
O Ouroboros, símbolo que mostra um dragão mordendo a própria cauda, é uma boa analogia para a atual situação política brasileira. Tal qual o dragão mitológico, os extremos do espectro político, tanto à esquerda quanto à direita, se tocam em aspectos como a intolerância, o autoritarismo, a discriminação preconeituosa e a violência. Retomar a moderação da Carta ao Povo Brasileiro, que permitiu a ascenção de Lula ao poder, faria bem ao Brasil e ao PT, que poderia se reconciliar com uma parcela importante do eleitorado perdido nestas eleições, o qual claramente rejeitou a opção tomada pelo PT rumo ao radicalismo, opção esta reafirmada pelo governo nos dias que se seguiram ao pleito. A lição que Jane Elliott ensinou com seu experimento ainda precisa ser aprendida por brasileiros de todas as preferências políticas, especialmente no Brasil fraturado que temos hoje: toda discriminação é ruim pois a menor minoria é sempre o indivíduo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Uma das premissas da ANOVA é a distribuição normal. Testo a normalidade em cada grupo ou com todos os grupos juntos?

Adoro responder e-mails assim. Às vezes até faço a análise para a pessoa e dou minhas idéias e opiniões muito além do que foi perguntado. Por isso, peço licença ao leitor R. e publico no blog a resposta que lhe enviei por e-mail. Espero que seja útil para R. e para todos os meus milhares de leitores. Aí vai:

O ideal em qualquer comparação de grupos por testes paramétricos (como o ANOVA e o teste t) é você ter GRUPOS com distribuição normal (para o teste t vc pode usar p. ex. os testes de Kolmogorov-Smirnov ou Shapiro-Wilk que já são para grupos) e variâncias homogêneas (ou ao menos significativamente não-diferentes, como no teste t, quando o teste de Levine tem valor de p maior que 0,05).

No caso do teste t é fácil. Mas e no caso do ANOVA? Fica mais complicado. Existem métodos para normalidade multivariada (como o teste de Mardia, comum em programas como o AMOS, para análise fatorial confirmatória ou modelagem de equações estruturais), mas sugiro um approach mais subjetivo e "qualitativo", especialmente se não tiveres acesso ao AMOS e se você não quiser explorar a chatésima função MANOVA do SPSS. 

Primeiro, para a normalidade você vai ter que avaliar para cada grupo o grau de assimetria (skewness) e curtose (kurtosis). Valores que fogem muito do zero na assimetria ou muito abaixo ou acima de 2 na curtose em algum grupo meio que já te obrigariam a fazer o teste de Kruskal-Wallis (não-paramétrico e sem pressupostos) e comparar os resultados dos métodos. Da mesma forma, grupos com distribuição leptocúrtica ou platicúrtica também são indicações de rodar um Kruskal-Wallis. 

Interessante notar que o teste de Mardia se utiliza justamente do grau de assimetria e curtose.

O SPSS faz assimetria e curtose por grupos.

Para a homogeneidade de variâncias, confira os valores de desvio padrão e variância de cada grupo e compare. Se lhe parecer diferente, vale a pena rodar o Kruskal-Wallis também.

Se você obtiver uma convergência de significâncias para o mesmo lado tanto no ANOVA quanto no Kruskal-Wallis, isso fortifica sua evidência. Se houver divergência, saiba que o Kruskal-Wallis é mais rigoroso que o ANOVA. Por isso tudo, vejo como uma gigantesca forçação de barra o uso do ANOVA em trabalhos que não descrevem o grau de aderência aos pressupostos.

Uma boa dica se houver uma relação ordinal entre os grupos (p. ex. ordens crescentes de doses aplicadas de um fármaco), é tentar o uso do Jonckheere-Terpstra, pouco usado mas muito útil em detectar de forma robusta uma tendência significativa de crescimento entre grupos ordinalmente relacionados entre si. Você encontra-o no mesmo menu de Testes Não-Paramétricos do SPSS para 3 ou mais grupos em que você encontra o Kruskal-Wallis.

Uma última boa dica é descrever o eta-squared do ANOVA, que dá a idéia de "effect size" ou "magnitude do efeito. Só a significância diz pouco na verdade, especialmente em amostras maiores (por conta do aumento dos graus de liberdade). Então, o mais importante mesmo é saber o tamanho da diferença, que o eta-squared dá.

Abs,

Collares

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Novos horizontes para o teste de progresso

Este estudo, apresentado na AMEE 2014, mostra que as questões com casos clínicos são significativamente menos respondidas pelos estudantes quando há penalidades para respostas erradas no teste de progresso, afastando-os justamente das questões nas quais deveriam estar mais engajados. Em seguida, apresento uma proposta de reconciliação entre os aspectos metacognitivos possibilitados pela penalidade, a acurácia na mensuração e a utilidade educacional do teste de progresso.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Controle e opressão dos médicos segundo Ayn Rand

Voltei só para compartilhar este texto de Ayn Rand, atualíssimo, enviado há um tempo por uma amiga médica e que agora republico aqui. Quem puder argumentar contra o texto a seguir, gentileza se manifestar, por favor? Grato.

"Parei quando a Medicina foi colocada sob controle estatal há alguns anos - contou o Dr. Hendricks. - A senhorita imagina o que é preciso saber para operar um cérebro? Sabe o tipo de especialização que isso requer, os anos de dedicação apaixonada, implacável e absoluta para atingi-la? Foi isso que me recusei a colocar à disposição de homens cuja única qualificação para mandar em mim era sua capacidade de vomitar as generalidades fraudulentas graças às quais conseguiram se eleger para cargos que lhes conferem o privilégio de impor sua vontade pela força das armas. Não deixei que determinassem o objetivo ao qual eu dedicara meus anos de formação, nem as condições sob as quais eu trabalharia, nem a escolha de pacientes, nem o valor de minha remuneração. Observei que, em todas as discussões que precediam a escravização da medicina, tudo se discutia, menos os desejos dos médicos. As pessoas só se preocupavam com o "bem-estar" dos pacientes, sem pensar naqueles que o proporcionavam. A ideia de que os médicos teriam direitos, desejos e opiniões em relação à questão era considerada egoísta e irrelevante. Não cabe a eles opinar, diziam, e sim apenas "servir". Que um homem disposto a trabalhar sob compulsão é um irracional perigoso para trabalhar até mesmo num matadouro é coisa que jamais ocorreu àqueles que se propunham a ajudar os doentes tornando a vida impossível para os sãos. Muitas vezes me espanto diante da presunção com que as pessoas afirmam seu direito de me escravizar, controlar meu trabalho, dobrar minha vontade, violar minha consciência e sufocar minha mente - o que elas vão esperar de mim quando eu as estiver operando? O código moral delas lhes ensinou que vale a pena confiar na virtude de suas vítimas. Pois é essa que virtude que eu agora lhes nego. Que elas descubram o tipo de médico que o sistema delas vai produzir. Que descubram, nas salas de operação e nas enfermarias, que não é seguro confiar suas vidas às mão de um homem cuja vida elas sufocaram. Não é seguro se ele é o tipo de homem que se ressente disso - e é menos seguro ainda se ele é o tipo de homem que não se ressente."

(Dr. Hendricks, personagem do livro "A Revolta de Atlas", de Ayn Rand)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Item response theory 101

I created this 20-minute YouTube video in order to help make the comprehension of item response theory by non-psychometricians or beginners in Psychometrics. I hope it will be fun for you. Despite some glithces in the recording, I think you will enjoy.

Carlos



terça-feira, 12 de junho de 2012

Acompanhamento longitudinal de escores latentes em testes de progresso: o uso da modelagem de equações estruturais



     Um dos desafios para a avaliação quantitativa do desempenho discente ao longo do tempo, isto é, avaliações longitudinais, ocorre com os testes de progresso. Sempre me incomodou o uso de escores brutos emparelhados ao longo do tempo para mostrar o tal progresso na aprendizagem. Nunca me conformei com essa estratégia. Sempre achei que esses gráficos não mostram nada, a não ser um "borrão" do real crescimento na aprendizagem. Erros de mensuração e variações na dificuldade das provas não são considerados nesses gráficos de escores brutos ao longo de sucessivos testes de progresso. Por isso, vi com muita felicidade a utilização do método do desvio cumulativo e da análise de tendência para a melhoria do benchmarking interinstitucional e da mensuração do progresso em testes longitudinais (Muijtjens, Schuwirth, Cohen-Schotanus, Thoben & van der Vleuten, 2008a; Muijtjens, Schuwirth, Cohen-Schotanus & van der Vleuten, 2008b; Schauber & Nouns, 2010). Porém, é necessário perceber que quando há diferenças individuais em curvas, há também mudanças nas variâncias e covariâncias ao longo do tempo. Isso significa que esses modelos podem ser analisados não apenas por análise de variância, mas também por modelos de regressão multinível aliados à teoria de resposta ao item, seguidos de análise por modelos de crescimento sob os pressupostos da modelagem de equações estruturais (Cohen, Cohen, West & Aiken, 2003).

     A representação do crescimento longitudinal por meio da modelagem de equações estruturais permite especificar de forma mais explícita as hipóteses a respeito de eventuais estruturas causais nos parâmetros de mudança e o potencial de predizer os escores "reais" da variável latente (theta). Pois é justamente a estimação das relações entre escores "livres de erro" propiciado a partir do uso de variáveis latentes a maior justificativa para o uso de modelagem de equações estruturais. No caso específico dos modelos de crescimento abordam tanto covariância quanto a mudança nas médias ao longo do tempo. Os vetores das médias e as matrizes de covariâncias são ambas utilizadas para fornecer informações  que pode ser utilizada para gerar estimativas de funções de mudança em construtos "livres de erro" (variáveis latentes, como o "theta"). Quem aplica isso atualmente de forma bastante elegante é a autarquia holandesa de avaliação, a CITO (http://www.cito.nl). Para detalhes, veja Verhelst & Verstralen (2002).

     Na minha opinião, e na de Cohen et al. (2003), a variância comumente incluída como "erro", i.e., as fontes residuais de variância ao longo do tempo, não são necessariamente "erro". O ideal seria chamar esse "erro" de variância residual. Por mais benefícios que a teoria de resposta ao item tenha contribuído na estimação mais adequada dos reais níveis de habilidade, quando comparada com a teoria clássica dos testes, os cálculos de precisão local da teoria de resposta ao item nos permitem afirmar com segurança que não existe algo como "escore real" ou "escore livre de erro". O que pode existir são escores com erros de mensuração minimizados.

     A equalização dos testes (test equating) é o ponto nevrálgico para o uso da teoria de resposta ao item (Schuwirth & van der Vleuten, 2012). O uso híbrido da calibração concomitante (concurrent calibration) e da calibração consecutiva em tese permite a comparação direta entre provas de diferentes dificuldades. Todavia, a  memorização de testes àncora usados na equalização pode interferir na mudança dos parâmetros (Langer & Swanson, 2010). Evitar a sueperexposição dos testes âncora é uma estratégia necessária, mas com eficácia aparentemente limitada. Deve-se lembrar que raramente os diversos pressupostos para a realização adequada da equalização são obedecidos.

     Em suma: a estratégia dos modelos de crescimento acoplados à teoria de resposta ao item (multinível ou não), não apenas minimizam os erros de medida, mas também melhoram sobremaneira o acompanhamento do desempenho do estudante. Todavia, não está isento de vieses. Como diz o ditado: não há mundo perfeito...


Referências:

Cohen, J., Cohen, P., West, S. G., & Aiken, L. S. (2003). Longitudinal regression methods. In: Applied multiple regression / correlation analysis for the behavioral sciences. 3rd ed. Mahwah, New Jersey: Lawrence Erlbaum.

Langer, M. M., & Swanson, D.B. (2010) Practical considerations in equating progress tests. Medical Teacher, 32 (6), 509-12.

Muijtjens, A. M., Schuwirth, L. W. T., Cohen-Schotanus, J., Thoben, A. J. N. M., & van der Vleuten C. P. M. 2008a. Benchmarking by cross-institutional comparison of student achievement in a progress test. Med Educ 41(1):82-88.

Muijtjens A. M., Schuwirth, L. W.T., Cohen-Schotanus, J., & van der Vleuten, C. P. M. 2008b. Differences in knowledge development exposed by multi-curricular progress test data. Adv Health Sci Educ 13:593-605.

Schauber S, & Nouns Z. (2010). Using the cumulative deviation method for cross-institutional benchmarking in the Berlin progress test. Medical Teacher, 32, 471-5.

Schuwirth, L. W. T., & van der Vleuten, C. P. M. (2012). The use of progress testing. Perspectives on Medical Education, 1, 24-30.

Verhelst, N. D., & Verstralen, H. H. F. M. (2002). Structural analysis of a univariate latent variable (SAUL): Theory and a computer program. Arnhem: Cito.














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